Resenha de Black Heart / Destructive Pleasure, de AION (DEATHRASH BOUND, 2010). Nota: 7,0.

O AION nunca foi “a banda”, pelo menos em termos de fama. Os caras tinham tudo para dar certo, mas nunca conseguiram emplacar. Após uma fase transitória, de 1983 a 1989, com dois singles e um álbum lançados com vocalistas diferentes, firmaram-se no fim da década de 80 com NOV, ex-vocalista da banda PARANOIA (de onde também saiu o HEATH do X JAPAN).

Regravaram o primeiro álbum com o novo vocal, fizeram alguns clipes e conseguiram um contrato com a BMG. Em 1991, com o lançamento do álbum AIONISM, começaram a causar um burburinho. As turnês conjuntas com o LUNA SEA tornaram os membros das duas bandas camaradas, gerando participações em álbuns e discos. Já em 1992, lançaram o álbum AION (é, eles não eram muito criativos) e IZUMI, guitarrista e líder da banda, era capa constante de revistas especializadas para músicos, ganhando reputação de shredder de mão cheia. Apareciam vez ou outra na TV embalados pelo sucesso do visual kei na época para divulgar os novos singles. E assim foram, sempre mornos até 1995, quando se separaram.

Diferente de contemporâneos como o X e o LUNA SEA, nunca conseguiram quebrar a margem do público cativo do visual kei e ficarem realmente populares. Os álbuns até atingiam boas posições no ranking semanal da Oricon (sendo a máxima a trigésima sétima para o disco AION de 1991), mas talvez o metal beirando o thrash fosse radical demais para o grande público. É só observar: YOSHIKI destruía seu kit de bateria em hinos do speed metal, mas nunca largou as baladas dignas de um Michael Bolton (eu também gosto das baladas do X, fiquem tranquilos) e o LUNA SEA abandonou muito daquele lirismo dos dois magníficos primeiros álbuns por uma roupagem mais pop. O AION nunca deu essa amolecida. Pelo contrário, ficaram até mais “difíceis” com o passar dos anos.

Mesmo com o fim da banda, IZUMI e NOV, o núcleo básico das muitas formações, resgataram o nome AION e começaram a lançar CDs fora do esquema das grandes gravadoras. Tudo vendido exclusivamente para o fã clube ou sob encomenda. Fazem uma série de lançamentos, desde VHS com shows bootlegs até três álbuns de inéditas num ano só!

Apesar da dificuldade que é conseguir qualquer coisa da banda, o AION é exatamente o tipo de banda que eu gosto de receber novidades. S.A.B. e DEAN, baterista e baixista da formação clássica, voltaram em 2000 só pelo prazer de tocarem juntos, mesmo que a coisa toda não renda quase dinheiro nenhum. Então, o que estamos lidando aqui não é com uma reunião milionária cheia de shows no Tokyo Dome para pagar as contas do divórcio. São bons músicos divertindo a si mesmos e seus fãs — que são insanamente apaixonados, é só dar uma olhada no DVD RECORDS.

“Black Heart/Destructive Pleasure” é o primeiro single em 16 anos! O último lançamento dos caras foi o estranhíssimo SISTER, álbum de 2000 que tem mais silêncio do que música (o negócio é experimental e bem bizarro mesmo). As duas músicas não são lá muito novidades, ambas são regravações de faixas antigas.

“Black Heart” vem “LAST SERENADE” do álbum Absolute, de 1994. IZUMI saca uma série de riffs afiados enquanto NOV interpreta a música com toda aquela dramaticidade que só o metal cantado em japonês consegue ter sem soar piegas. Afora o solo barulhento no estilo dos que infestam o álbum SISTER, a música é muito boa. As inovações ficam na exclusão da introdução lenta e uma leve mudança na melodia.

“Destructive Pleasure" tem um pouco de “Elegant Fear”, também de Absolute, e “Zirconer”, música de meados de 1985. Após a introdução de bateria e guitarra, o riff da Zirconer entra. No refrão, NOV canta “buchi korose”, parte da letra de “Zirconer”. O resultado desse samba-do-crioulo-doido é bem legal, dessa vez com IZUMI tocando um solo rapidíssimo cheio de influências clássicas, fazendo jus a sua fama de shredder. O CD ainda conta com versões instrumentais das músicas caso você queira perturbar as pessoas da sua casa gritando em japonês.

O single é muito bom, mas indicado só para quem já teve contato com os CDs do início da década de 90. Talvez um ouvinte não familiarizado com a fase recente se espante com a produção amadora, mas todos os lançamentos desde a saída da BMG são assim. Se você não conhece a banda, é melhor explorar a fase clássica antes de chegar a tudo o que foi feito depois. De qualquer forma, “Black Heart/Destructive Pleasure” faz jus ao que se propõe: um presente para os fãs.


Publicação original de 18/01/2011.

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