Um berro anunciando “JADE” por parte de TOSHI após a introdução e o X JAPAN começa seu show para casa cheia no HSBC Brasil em São Paulo após atraso assumido no palco por representante da sempre enrolada Yamato Corporation (e respondido de maneira não muito cordial pelo público já doutorando nas trapalhadas da produtora). “Rusty Nail” e “Silent Jealousy”, mesmo com som embolado, condição que reinaria até o fim da apresentação, exibem uma banda bem azeitada e um TOSHI surpreendentemente potente e afinado – desempenho totalmente oposto às apresentações da banda no ano passado e início deste ano que pipocam pelo YouTube.

Ver o X JAPAN do novo século é confirmar sensações percebidas a cada movimento e atitude da banda. Sem ter mais um expoente de carisma tão potente quanto o seu, YOSHIKI transforma o show em um espetáculo de um homem só. Vê-lo espancando os pratos do kit de bateria ou solando descontroladamente no piano com seu tradicional semblante de sofrimento é um fenômeno extramusical. Seus movimentos são um equivalente japonês de assistir Thurston Moore destroçar sua guitarra em meio à microfonia ou Bruce Dickinson balançar a bandeira da Inglaterra (para exemplificar com colegas de profissão oriundos da mesma década). Imagens hipnóticas, símbolos da cultura pop.

Não que isto seja uma ordem instaurada onde os outros membros sejam inibidos de se destacarem. Pelo contrário. O que acontece é que, quando YOSHIKI sai do palco, o vácuo é tão grande que mesmo a fatia mais exaltada do público, aquela que berra a qualquer semblante de movimento dos seus heróis, responde quase friamente. Como durante “DRAIN”, faixa de DAHLIA (1996) interpretada só por TOSHI, PATA e HEATH, bem menos comemorada que canções recentes que nem sequer foram lançadas formalmente, como a modorrenta “Born to Be Free”.

O grupo representa bem os seus papéis. PATA segura as bases com contundência mesmo continuando com aquela cara de “mas-que-horas-são-mesmo?”, TOSHI veste a pele de frontman quando requisitado e HEATH, agora com anos de quilometragem nas costas, já não parece tão deslocado quanto no passado.

O cerne do novo som do grupo se dá na simbiose inusitada gerada pela presença de SUGIZO. Quase como um escudeiro fiel de YOSHIKI, toca os solos de hide nota por nota e sabe as horas onde deve ou não se colocar em destaque. Competência e profissionalismo que provavelmente lhe garantiram trabalhos tão díspares quanto os cargos no Juno Reactor ou no N.M.L. de Ryūichi Sakamoto.

Quando chega a sua hora, vai de Tom Jobim à LUNA SEA no violino para abrir o clássico “KURENAI”. Sistematicamente, a apresentação da banda é curta. Clássicos como “WEEK END” ou “ORGASM” são limados do set list, dando lugar a faixas novas, como “I.V.” cantada à plenos pulmões pelos presentes.

São onze músicas divididas entre momentos como os dos shows imortalizados em DVDs que povoaram os fãs do Ocidente. A banda abre espaços para longos solos individuais, estende refrãos (como os “We are?” da clássica “X”) e conversa com o público.

Eles voltam para o encore com uma versão curta de “FOREVER LOVE” e presenciam uma bela homenagem dos fãs aos falecidos hide e TAIJI durante os solos de “ENDLESS RAIN”, quando a plateia joga para o alto dezenas de bolas coloridas. Um trecho da épica “ART OF LIFE” finaliza o show propriamente dito para depois os membros fazerem suas saudações e se despedirem enquanto “TEARS” e uma versão acústica da mesma “FOREVER LOVE” ecoam pelos falantes do HSBC Brasil.

Para alguns, ver o X JAPAN pode parecer assistir a um grande circo repleto de obviedades, onde cada atitude, mesmo que aparentemente espontânea, é rigorosamente ensaiada e repetida por anos. No entanto, é inegável que a banda dá aos fãs com uma ótima apresentação exatamente o que eles esperam, tornando aquela pouco mais de uma hora uma experiência gratificante para ambos. Mesmo que isto signifique a domesticação tanto do artista quanto do público.

Set List:

  • New Intro
  • JADE
  • Rusty Nail
  • Silent Jealousy
  • DRAIN
  • Violin Solo (SUGIZO)
  • Piano Solo (YOSHIKI)
  • KURENAI
  • Born To Be Free
  • Drum Solo (YOSHIKI)
  • I.V.
  • X
  • Encore:
    • FOREVER LOVE (Piano Version)
    • ENDLESS RAIN
    • ART OF LIFE (2nd Movement)
  • TEARS (English Version) [S.E.]
  • FOREVER LOVE (Acoustic Version) [S.E.]

Fotos: Esper (I Hate Flash)


Publicação original de 19/09/2011. 4 imagens desta publicação não sobreviveram à migração de 2013.

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