De volta

E aí, pessoal da Rádio Blast!, como estão? Como já antecipado no Na Ponta do Lápis, o Japanice em seu formato de programa e artigo está de volta depois de um tempo sem aparecer. Caso não se lembrem do horário dos programas e da sua proposta, aqui vai: no Japanice, um novo tema é escolhido a cada semana para ser tratado na forma de programa e artigo. Os temas procuram explorar o Japão e sua cultura da forma como eles realmente são, seja por meio de suas bizarrices ou de sua realidade muitas vezes preocupante.

Os rumos do programa podem tomar lados mais “leves” quando o aspecto a ser explorado relaciona-se com a maneira estranhamente engraçada de a sociedade japonesa ser. Da mesma forma, os assuntos também podem tomar vias mais sérias quando o objetivo é apresentar a realidade social japonesa escondida nas entrelinhas, e os meios de comunicação preferem não mostrar.

O programa vai ao ar nas quartas às 17h e aos sábados às 10h. Junto com o programa, a cada semana um artigo sobre o tema é publicado. A novidade é que, a partir de agora, sugestões de temas são muito bem vindas. É só mandar um e-mail para [email protected]. Será um prazer poder atender sugestões de vocês.

O tema desta semana é um pouco mais sério do que o que é habitualmente tratado por aqui. Tratando-se de Japão, o assunto escolhido é a maior característica que identifica a sociedade japonesa enquanto um só povo. Estamos falando de algo muito antigo e seguido à risca pelas tradições desde os tempos mais remotos do Japão Feudal. É um fator que permeia em todas as ações da vida de um japonês, e faz isso sem ele nem ao menos perceber. É a base não só social do Japão, mas também cultural, econômica, e talvez seja responsável por todo o desenvolvimento tecnológico e o “status” que a nação japonesa hoje tem de um dos países mais bem-sucedidos de todo o mundo. Status, uma boa palavra pra definir isso tudo de forma bem simples. Conheçam o real motivo do Japão ser o Japão: a Hierarquia Japonesa

Hã?

Em todos os lugares do mundo, sejam eles as nações mais inóspitas ou as mais conhecidas, há sempre características que acompanham o homem que dela faz parte. São fatores inerentes ao ser humano, ou seja, sempre existirão e se manifestarão de forma natural enquanto nós existirmos. Não há nada que possamos fazer para evitá-las, elas simplesmente existem e estão ali porque fazem parte de nossa personalidade e só por conta delas somos humanos. Sentimentos universais, como compaixão, amizade, amor e tantos outros já são bem conhecidos por todos. Também nos faz parte o sentimento de hierarquia, o qual muitas vezes nem nos damos conta.

Pra quem desconhece o significado dessa palavra, dentro dos quatro significados que o dicionário Aurélio dá, escolhi apenas um que parece representar o que quero dizer da melhor maneira: “3. Fig. Série contínua de graus ou escalões, em ordem crescente ou decrescente; escala: hierarquia de valores”. Trocando em miúdos, hierarquia é a divisão dos graus de poder. É reconhecer que uma pessoa é superior em sua posição do que outra em posição mais baixa. É o diferente modo de classificar os objetos enquanto dotados de certa significância, no qual o melhor tem mais poder e o pior menos.

Pois é, esse reconhecimento de que existe alguém superior que você, o qual é seu dever respeitar e servir, é uma dessas características que sempre acompanham o ser humano. Mesmo entre alguns animais, como em grupos de gorilas, por exemplo, há um líder que comanda todo o resto segundo suas decisões. Da mesma forma, esse conceito está inserido em toda nossa sociedade. Tente pensar em algum lugar ou grupo social no qual nenhum resquício de hierarquia exista. Seja no trabalho, escola, família, religião, ou em qualquer outro ambiente, não há como fugir. São raras as situações onde suas implicações são mínimas, como em grupos de amigos, por exemplo, mas de uma forma ou de outra, há sempre um sinal restante dela.

O fato é que, no Japão, isso atinge proporções imensas.

Hontō ni gomen nasai (Me desculpe, de verdade)

No Japão, os graus hierárquicos são os responsáveis por reger a sociedade em todas suas instâncias da forma mais efetiva possível. Essa discrepância entre um superior e alguém de um cargo mais baixo é extremamente gritante e apela para enormes outras aplicações. Como em todas as outras sociedades, há sempre alguém para se respeitar e se desculpar caso o objetivo seja o de manter a honra e não ser visto como um transgressor. O “chefe” é digno de toda a confiança e dedicação, mesmo que ele, em sua personalidade não seja tão digno assim.

A nação japonesa, porém, leva essa submissão a escalas altas o suficiente para suprimir e pressionar os desejos individuais de cada um. O enorme respeito e formalidade com que as relações sociais devem ser tratadas já é algo forte o suficiente para pautar e marcar os sentimentos de uma forma muitas vezes distante e indiferente, o que compromete muito a vida social de qualquer um. O japonês reconhece que é inferior e deve tudo de si a alguém; dessa forma, trabalha e dedica-se inteiramente a essa causa.

Desde sempre, quando o assunto é a moral social japonesa, os conceitos de respeito e dedicação vieram principalmente da antiguidade do Japão feudal. Essas características são tratadas como tradições, passando de uma geração pra outra como a verdadeira maneira japonesa de ser. O mais curioso, porém, é que, hoje em dia, após tanto tempo que tais aspectos comportamentais fazem parte da realidade nipônica, as pessoas são assim mesmo sem saber muito bem a razão, de um jeito “automático”.

Esses graus de poder e a força que eles têm sobre o indivíduo, em especial no caso japonês, o deixam apto a uma espécie de “dever”. É dever honrar a pessoa cujo status é maior por meio de suas ações. Isso se aplica, por exemplo, na forma como você se dedica. Os japoneses, por conta desse extremo senso de dever e escalas hierárquicas, tomam para si um forte desejo de dedicação para que, enfim, sua “tarefa” possa ser cumprida.

É assim que a sociedade japonesa é tão conhecida por trabalhar duro e com enorme força de vontade, o que é realmente bonito. Talvez todo o desenvolvimento que o Japão hoje possua seja fundamentalmente por causa disso. Afinal, para conseguir se recuperar após ser destroçado em uma Guerra Mundial e se tornar a segunda nação mais rica do mundo durante muitos anos é preciso um enorme senso de dedicação ao trabalho.

Consequências desse exacerbado respeito às ordens hierárquicas podem ser vistas nos mais diferentes aspectos do cotidiano japonês. Na maior herança cultural que nos fica, o idioma, grandes provas disso podem ser encontradas. No japonês, há sempre formas informais e formais de se falar, como em todas as línguas. No entanto, a diferença de níveis de linguagem nesse idioma é ainda mais distante e curiosa. Como exemplo, estão as maneiras de se terminar o nome de alguma pessoa.

Até que se conheça bem alguém, não é aconselhável que o chame pelo nome, e sim pelo sobrenome seguido do sufixo -san, que significa algo como senhor em português. Caso a pessoa com quem se fala seja digna de grande respeito, há palavras especiais para isso, como otōsama, algo como honorável pai. Por fim, estão diversas formas de se desculpar, pedir licença e realizar os tão famosos e pertinentes cumprimentos japoneses, tudo muito bem formal.

Na própria maneira de cumprimentar dos japoneses, a hierarquia também está presente em demasia. No Japão, o mais comum é cumprimentar fazendo uma reverencia abaixando a cabeça e se curvando em frente à pessoa. Geralmente, essa “curvatura” é bem pequena e serve apenas como símbolo de respeito quando se trata principalmente de conhecidos. No entanto, o ângulo pode variar dependendo da importância da pessoa com quem se fala. Caso o cumprimento seja direcionado à alguém enormemente importante, por exemplo, deve-se curvar num ângulo de 45°, uma posição que significa subordinação extrema.

No emprego

O trabalho é um dos maiores símbolos de hierarquia no Japão. Dentro de uma empresa, o principal dever de um operário é entender sua posição caso seu desejo seja o de alcançar uma promoção. Organizam-se os trabalhadores, subchefes, diretores, chefes de seção e demais cargos de maneira enormemente estratificada. Cada um sabe sua posição, a quem deve obedecer, o que pode ou não fazer. Ultrapassar esse limite e tentar ser ousado no que diz respeito ao cumprimento dessas “ordens de comportamento” significa ser despedido sem dó.

Nas empresas, o trabalho duro e o tempo de estadia é o que ditam o quão grande vai ser o sucesso de um trabalhador. Para subir e alcançar grandes cargos, é preciso, antes de tudo, ser fiel à fábrica e tratá-la como sua verdadeira razão de ser. Deve-se ficar anos e anos trabalhando em um mesmo setor na mesma empresa para que a promoção possa ser alcançada. Esse esquema, de certa forma, limita muito a capacidade do empregado de crescer apenas por suas habilidades e o transforma em apenas um objeto.

Em nenhum momento, porém, a decisão de quando e como sua promoção deve ser feita é questionada pelo trabalhador. Ele acredita, com todas suas forças, que essa oportunidade aparecerá na hora certa por intermédio do chefe, cujas decisões são irrevogáveis e dignas de toda confiança que possa existir. A autoridade não é questionada, pois há o pensamento de que tudo é bem-orquestrado e está sob controle nas mãos de quem realmente tem o poder.

Homens × Mulheres?

Como não poderia deixar de existir, no Japão, a submissão das mulheres é encontrado em proporções ainda grandes. Não falo de violência doméstica ou deterioração do corpo feminino, e sim de uma espécie de “moral” que permeia todas as camadas sociais, algo silencioso e grandemente poderoso. As mulheres japonesas são vistas, muitas vezes, como simples objetos domésticos. Elas devem se submeter e respeitar os homens, mesmo que estes não mereçam.

Essa ideia de submissão hoje em dia é bem pequena se comparada ao que já foi um dia, inclusive ditada por lei. Em 1898, o Código Civil Meiji não dava a elas nenhum tipo de direitos, e as renegava à donas de casa. Hoje, as japonesas têm seus direitos garantidos e já conseguem ter suas próprias carreiras sem depender de nenhum homem para lhe dar apoio.

No entanto, ainda é esperado da mulher japonesa ser da forma como suas antecessoras foram na escala hierárquica. Dessa forma, algumas predisposições já são esperadas por parte das mulheres. Ainda é bem comum por lá, por exemplo, uma visão de vida extremamente simplista e medíocre no que diz respeito ao sexo feminino. Não se espera mais nada das japonesas do que trabalhar por um curto período de tempo enquanto se casa e passa a cuidar exclusivamente de sua família. Há também palavras e expressões geralmente de cunho muito formal que só mulheres usam para se comunicar, o que as deixa estereotipadas enquanto gênero. Essa linguagem própria, de certa forma, funciona como uma diferença sempre constante que ainda separa homens e mulheres.

Mais longe do que se pensa

Os graus de hierarquização na sociedade japonesa, da forma exacerbada como são encarados, também são responsáveis pela maneira japonesa de enxergar o mundo. A hierarquização, por conta do “senso de dever”, muitas vezes acaba por oprimir seus indivíduos a ter que, a qualquer custo, realizar determinada atividade com todas suas forças. Ele não consegue pensar em nada além daquilo que já está estabelecido pela hierarquia vigente. Seu objetivo é apenas cumprir o que todos estão fazendo sem questionar absolutamente nada. Dessa forma, toda sua criatividade e capacidade de se diferenciar são suprimidas sem escrúpulos.

De tanto sentir-se inferior perante um ser maior, o indivíduo acaba acoplando esse sentimento ao seu modo de ser. Assim, a tarefa de exprimir o que se sente fica em segundo plano uma vez que o costume sempre foi o de “obedecer” e não o de “ser”. As relações sociais ficam cada vez mais difíceis de serem realizadas por conta dessa extrema dificuldade em se expressar, o que dá aos orientais aquela fama de antissociais.

No entanto, é muito por causa das diferentes escalas de poder que a dedicação em cumprir seu dever aparece, o que dá margem para que sua realização seja a mais perfeita possível. É por conta de sentimentos como esse que a nação inteira cresce em enorme desenvolvimento.

Dessa forma, a hierarquia japonesa apresenta-se, sobretudo, como um diferenciador social de extrema importância.

Shitsurei shimasu (Com sua licença)

É, sem dúvida, uma faca de dois gumes. Talvez classificar essa característica social friamente em prós e contras seja muito desumano. Talvez a realidade japonesa seja muito mais complexa e envolva outros diversos fatores do que os expostos aqui.

É uma questão pertinente quando se trata de Japão. Um país brilhante e, acima de tudo, curioso.

Espero suas sugestões em [email protected]. Até!


Publicação original de 14/12/2011. 6 imagens desta publicação não sobreviveram à migração de 2013.

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