Pregam que essa história de cena de bandas influenciadas por j-music no Brasil morreu. Pelo menos em sua forma mais primitiva: a vida dentro do próprio ambiente de cultura japonesa. Integrantes dos grupos apontam os produtores como problema, os produtores dizem que o público não quer mais as bandas, o público debanda ano após ano dos eventos de anime. O caos e desorganização do cenário aqui no Rio de Janeiro são tão entristecedores que fariam a Hebe Camargo cortar os pulsos!
Então, o que você vai ler a seguir é o relato de um bate papo honesto com a banda carioca Radio Clock. Afinal de contas, os caras estão cercados de expectativas com relação às suas novas empreitadas e já acumulam experiência de trabalhos anteriores.
Você vai presenciar uma das conversas mais francas e explícitas que uma banda desse cenário já deu. Fiz questão de manter até alguns erros, para que a atmosfera de onde a entrevista aconteceu — a saudosa e inóspita Caverna do Bin Laden em Niterói — fosse transportada para as linhas de pergunta e resposta. Portanto, abra algumas garrafas de cerveja e encare essa aula de maturidade.
Vini Damazio: Vamos do início... Como a Radio Clock se formou?
Caião Relíquia: Bom... Era algo que eu já fazia em São Paulo, onde eu morava. Queria fazer a mesma coisa no Rio, mas não achava pessoas que gostassem das coisas que eu gosto. E aí, um rapaz uma vez, no Orkut, me indicou a comunidade do Anime Uchuu (n.d.e.: evento de anime carioca). Foi aí que eu encontrei os caras da banda.
Vini Damazio: Peraí, você tocava essas músicas de tokusatsu em São Paulo também?
Caião Relíquia: É!
Vini Damazio: Antes ou depois da banda de reggae?
Caião Relíquia: Antes, antes! (risos)
Vini Damazio: Mas, você L, sempre cantou em bandas visuais, como que você foi parar numa banda de músicas de tokusatsu?
L: Eu já cantava! Só não tinha banda para tocar (risos). Quando eu saí da Personna até tentei formar banda de animesong, só que eu não encontrava gente que quisesse.
Vini Damazio: Interessante que eu não vejo na Radio Clock é aquela imagem de “Ah, como eu queria ser japonês...”. Tudo bem que costuma acontecer mais com bandas visuais... Isso vem da experiência de trafegar por estilos diferentes?
L: Ah, cada banda pensa de um jeito. Tem banda que toca músicas de visual kei e se veste normal. Tem banda de anime que usa cosplay... Às vezes é só a aparência mesmo, não acho que seja necessariamente essa coisa do cara querer ser japonês.
“Não da para estar aqui no Brasil e ter o pensamento de banda do Japão. Não adianta a gente cantar em japonês se vocês não vão entender e eu vou errar a letra (risos).”
L
Vini Damazio: A versão da “Tokkyu Shirei Solbrain” saiu em março. Músicas próprias estão nos planos da banda?
Caião Relíquia: A gente não tem urgência, estamos fazendo tudo com tranquilidade. Mas, vamos lançar sim.
Vini Damazio: As letras serão em japonês, português ou inglês?
L: Tenho vontade de fazer em português. Acho mais fácil atingir quem está ouvindo. Independente da estética. A mensagem é bem mais clara, o pessoal já pega a letra. Até porque nem todo mundo que curte esse tipo de música sabe japonês.
Vini Damazio: Quando você estava na Personna, as letras eram em japonês. O que bateu para começar a trabalhar em português?
L: Tanto eu quanto o pessoal da Allumina (n.d.e.: banda de visual rock que ele faz parte) fizemos em letras em japonês em bandas passadas... Não da para estar aqui no Brasil e ter o pensamento de banda do Japão. Não adianta a gente cantar em japonês se vocês não vão entender e eu vou errar a letra (risos). Mesmo que a música seja minha, não sou samurai, né? (risos) A gente pode usar o inglês aqui e ali, porque é mais perto da nossa realidade. Mas, não rola fazer música em japonês.
Vini Damazio: E porque regravar a “Solbrain”?
Caião Relíquia: A gente...
Bêbado qualquer: OLHA O GOL! AHHHHHH (gargalhadas gerais).
Caião Relíquia: Então (risos), a gente precisava ter um material de divulgação. Então, escolhemos entre todas as versões fizemos e essa foi a que a banda toda preferiu. Até porque se eu escolhesse seria outra (risos).
Vini Damazio: Nessas músicas vocês vão usar histórias de séries que já existem ou vão criar personagens próprios?
Caião Relíquia: Do que a gente trabalhou de música autoral, o material foge bastante das séries. Até porque contam também as influências fora da j-music.
L: Não tenho certeza do que a gente vai falar... Não sei se a gente vai falar do Jaspion ou do Kamen Rider. Mas, vão estar nas letras influências das músicas dos animes e tokusatsus. Assim da para atingir tanto as pessoas que curtem as séries quanto gente fora do meio. Eu até pensei em fazer coisas conceituais em cima de um personagem. Mas, essa coisa de fazer música para anime só rola Japão, já que aqui não existe o mercado.
Vini Damazio: Mas vai rolar uma parceria com os caras do Krom, Sentinela do Espaço, não?
Caião Relíquia: O pessoal da Tokufriends são amigos nossos e sempre ajudam a divulgar a banda, daí nasceu o contato. Os caras da comunidade da Tokufriends sugeriram o Krom, que tem uma qualidade que nenhuma outra série amadora tem. Começamos a conversar e surgiu a parceria.
Vini Damazio: Eles deram algum direcionamento de como deveria ser a música-tema?
L: Isso não te interessa! (gargalhadas gerais) Estamos vendo como vamos fazer isso. É delicado fazer esse tipo de trabalho encomendado. Como a série é brasileira, o ideal era cantar em português mesmo. Apesar de que se fossem uns amigos nossos eles iriam fazer em japonês (risos)... Mas, a ideia é fazer algo que não fique ridículo. Não da para criar um negócio igual a uma tradução de música de tokusatsu que não vai ficar bom. Tem que ser uma influência sutil.
Caião Relíquia: Até porque a gente não está mais em 1975 ou 1978. Uma marcha heróica embalando uma série não da mais. Óbvio que não da para deixar de falar sobre o herói, mas independente de ser tema da série, é uma música da banda Radio Clock.
Vini Damazio: Você acha positiva essa mudança de direcionamento das músicas-tema? Hoje em dia um monte de animes nem música própria tem mais, é só uma banda cantando sobre qualquer coisa. E mesmo o JAM Project faz um trabalho bem diferente do que os caras fazem individualmente.
L: Se não tivesse mudado, ficaria sem graça. Cansa. É legal que o JAM Project tenha resgatado essa cultura de fazer músicas-tema numa visão atual. Chato é quando botam uma música qualquer, como você disse.
Caião Relíquia: Também vejo como progresso. As coisas mudam. Tudo bem que eu não posso garantir que daqui a cinco anos as marchas heróicas vão voltar... Se você ver as séries amadoras de tokusatsu, os caras seguem muito essa receita antiga. Ninguém pensa em inovar. Aí você vê os caras do Krom, mudando a forma de trabalhar, filmando em HD, coisa que ninguém fez antes... Então, a gente tenta interagir com essas mudanças. Fazer tudo duma forma natural, músicas que possam tocar num show e não só uma mera trilha de série.
“Cedo ou tarde, a banda acabaria perdendo ela”
Caião Relíquia
Vini Damazio: Tinha uma menina dividindo os vocais na Radio Clock antes...
L: Pergunta polêmica! (risos)
Vini Damazio: Daria para seguir o mesmo caminho e criar essas oportunidades caso ela ainda estivesse na banda?
Caião Relíquia: (pausa por quase um minuto) Não. (gargalhadas)
Vini Damazio: Por quê?
Caião Relíquia: Ela tinha uma forma de pensar diferente da nossa. Mesmo sendo uma boa cantora, ela estava fora do nosso ritmo e eu acredito que ela não estaria animada para fazer as coisas que nós fazemos hoje em dia. Ao menos não tão animada quanto nós. Então, cedo ou tarde, a banda acabaria perdendo ela.
Vini Damazio: Mas, por qual motivo ela saiu?
Caião Relíquia: Ela não estava alinhada com a gente. Eu gosto muito da Konata. Até tocou comigo numa banda anterior a Radio Clock. Acompanhei todas as mudanças que ela teve. Ela melhorou muito a maneira como canta, mas continuava irredutível em certas coisas... Acho que foi melhor seguir assim do que continuar com ela e o trabalho ser mal feito.
“A mesmice das bandas enterrou o nosso glamour. Se você for num evento de anime com dez bandas, as dez provavelmente vão tocar “Pegasus Fantasy”, “GO” ou “Haruka Kanata”
Caião Relíquia
Vini Damazio: Hoje vocês tocaram num evento de anime em Niterói, uma cidade que praticamente não tem nada do tipo, e o público assistindo ao show não foi muito grande. Você acha que quem pagou os R$ 20,00 do ingresso vai com interesses específicos ou o público só não quer mais assistir aos shows das bandas?
Caião Relíquia: Há muito tempo as pessoas ainda iam aos eventos só por causa das bandas, principalmente quando elas começaram a aparecer. Há uns cinco anos, em São Paulo continuava da mesma forma: as bandas como atrações principais. Aqui no Rio, a visão das pessoas que frequentam eventos de anime é muito diferente. As bandas não são mais o foco. De qualquer forma, a gente quer trabalhar para resgatar esse mainstream. Ensaios, equipamento, transporte — a gente gasta muito dinheiro e não tem uma renda bacana. Lógico, os eventos de anime também mudaram. Rola muito mais lucro para o organizador e menos diversão para quem vai.
Vini Damazio: Mas o que gerou essa ‘desglamourização’ das bandas?
L: Um pouco da culpa é das próprias bandas. Boa parte delas continuou tocando as mesmas coisas, sem mudar o repertório ou inovar nada. Ou talvez o público só ache melhor fazer qualquer outra coisa no evento do que assistir a um show.
Caião Relíquia: A mesmice das bandas enterrou o nosso glamour. Se você for num evento de anime com dez bandas, as dez provavelmente vão tocar “Pegasus Fantasy”, “GO” ou “Haruka Kanata”. Por isso a gente busca coisas diferentes, cria versões, toca músicas que ninguém tocou. Para tentar uma posição de destaque para a banda. Ao menos, não ser mais um tapa buraco na programação.
Vini Damazio: O auge das bandas brasileiras dessa cena é abrir o show de algum ídolo ou até acompanhar e gravar com o cara, como aconteceu com a Gaijin Sentai. Tem como ultrapassar isso?
Caião Relíquia: Poxa, ia ser muito bacana acompanhar nosso artista preferido (risos). Privilégio que poucas bandas por aqui tiveram... A princípio, a ideia é crescer no meio. O que por si só já é difícil. Não que seja um gênero morto, mas não existe uma cena de j-music no Brasil. Por mais que a gente queira acreditar, é a mais pura ilusão. Não da para se enganar, não existem produtores interessados nisso. Então, mesmo sendo influenciados por esse tipo de música, tem que criar uma identidade e trilhar o próprio caminho.
Vini Damazio: Uma união das bandas melhoraria ou criaria uma cena, mesmo com o descaso dos produtores?
Caião Relíquia: Existir um mercado nunca vai. Mas uma união e organização das bandas trariam um profissionalismo que fora desse meio todo mundo sabe que rola. O ideal seria as bandas conquistarem o respeito que tinham antes. No entanto, por mais interessante que a gente seja, é um mercado inexistente. Não da para viver disso.
Para conhecer:
- Comunidade Radio Clock no Orkut
- Versões para “Soldier Dream” e ”Tokkyu Shirei Solbrain”
Fotos: NeoConcepts
Desenho: Arquivo Radio Clock
Publicação original de 30/04/2011. 4 imagens desta publicação não sobreviveram à migração de 2013.