Resenha de addle apple, de the god and death stars (david skull no records, 2011). Nota: 10,0.
Não o criador, mas o principal formatador do som visual de Nagoya, aie faz parte dum seleto grupo de músicos que obsessivamente retrabalham os mesmos temas e ideias que o assombram. Diferente de seus contemporâneos (tenha em mente membros do GULLET, BLAST, Phobia, Kagerou ou kein) que constantemente mudavam de figura, mesmo que conservando certo clima lúgubre que parece ligar todos esses filhos de Nagoya, está esteticamente refém a uma melancolia que o marcou em algum momento da vida, e trabalha por toda a sua carreira para curar ou afagá-la.
É possível argumentar que aie não tinha como ser muito exuberante depois da morte de Daisuke (seu parceiro de the studs) ou do fim do deadman, provavelmente graças ao maluco-moribundo Mako, que abandonou a música de vez. Mas, agora sem um porta-voz para suas letras, ele atingiu um dos mais notáveis florescimentos tardios da história do visual kei. Suas composições e, principalmente, seu timbre e approach à guitarra bem característico se consolidaram nesses anos de kein, deadman, the studs e highfashionparalyze. Sempre pontificando uma mesma angústia.
O centro sônico do the god and death stars está no próprio aie. A autoexplicativa “the introduction” esconde o ouro por um minuto em meio ao mesmo tempo em que ambienta para o universo de addle apple. As próximas, “Elephant” e a faixa-título, confirmam que o segredo das bandas citadas era justamente seu guitarrista.
No entanto, o passado teve efeitos fortes: ele se apropria da voz de Daisuke, cantando assustadoramente igual ao falecido. No baixo e bateria, kazu (dim my division, ex-Kagerou) e Jun Ōtaka (rowthe) primam pela correção. Reforçam as melodias de “dum house” e “Taima” escolhendo com cuidado as horas para “crescerem”. Não há truques, a produção simplória e despojada dá a crueza necessária para o fim emocional com “Roka”. Várias camadas de guitarra vão surgindo para serem interrompidas num corte tão abrupto que mesmo com o silêncio instalado eu ainda estava perdido no clima de addle apple...
No fim, o miniálbum honra aquilo que é mais importante para aie — o próprio estilo aie.
Publicação original de 22/11/2011.