Outra vez:
E aí, povo da Radio Blast!, como estão? Sou Pictor, e este artigo é uma versão escrita e mais aprofundada do meu programa, o Japanice, que vai ao ar todos os sábados às 10h e quintas às 16h. O Japanice continua firme e forte no seu propósito em falar sobre a cultura japonesa através dos mais diferentes assuntos relacionados a características do Japão que quase ninguém conhece. É apresentando esse país tão diversificado culturalmente de uma maneira também diversificada que pretendo, acima de tudo, fazer com que os leitores e ouvintes compreendam o quão plural o Japão pode ser.
A cada semana, um novo tema é escolhido para ser tratado e transformado em artigo. Depois de falar sobre os mais variados assuntos, o tema de hoje é, especialmente, algo que faz parte da realidade dos otakus brasileiros. Se você se denomina otaku e faz parte dessa “tribo”, ou simplesmente gosta da cultura japonesa como um todo, com certeza já se deparou com esse assunto antes. Abram suas mentes pra críticas, avaliações e comparações pra essa iniciativa cada vez mais comum no mundo todo: as convenções de anime!
Essas convenções podem ser consideradas a maior expressão da “cultura otaku”, sem dúvida. Fazendo parte de encontros cujo tema principal são as animações japonesas, as pessoas têm a oportunidade de se conhecer e discutir sobre os mais variados assuntos, relacionados ou não à cultura japonesa. Somado a isso, as diferentes reações que as pessoas das diferentes partes do mundo têm no seu jeito de apreciar e construir eventos são algo no mínimo curioso. Os motivos e sentidos que levam um fã brasileiro a ir a um desses encontros são extremamente diferentes dos de um japonês ou americano. As convenções lá e aqui se diferenciam em diferentes aspectos, seja por conta do público, das atividades ou de qualquer outro fator. Entenda como são as “convenções anime” a seguir:
Obs: Como essa categoria de eventos ainda não tem um nome próprio no Brasil e pra evitar chamá-los pela horrível denominação “eventos de anime”, os tratarei por “convenções anime”, “convenções”, “encontros” ou, simplesmente, “eventos”.
Mas o que é uma “convenção anime”?
Os eventos que têm como tema as animações e quadrinhos japoneses são, como o próprio nome diz, encontros que acontecem com o propósito de reunir as pessoas que compartilham desse mesmo gosto. O grande propósito dessas iniciativas é, em tese, fazer com que a cultura japonesa seja mais conhecida pela população em geral. Ainda que a maioria do público presente se baseie em “otakus”, as atividades podem não tratar só do que eles apreciam, e muitas vezes dizem respeito ao Japão em geral.
Esse tipo de encontro geralmente é feito pelos próprios fãs, e são raras as vezes em que o evento toma proporções grandes o suficiente para a administração ser feita por empresas específicas no ramo da organização de eventos. Dessa forma, as convenções, por serem em geral feita pelos próprios fãs, têm uma atmosfera bem intimista e de nicho. No entanto, com a verdadeira invasão que a cultura pop tem provocado no ocidente, o fato de as convenções serem de caráter recluso não tem diminuído seu público. Pelo contrário, o público que frequenta as “convenções anime” só cresce com o passar dos anos, e de uma forma monstruosa, diga-se de passagem.
Especialmente no Brasil, onde o gosto e a identificação entre os fãs de animação japonesa podem ser considerados recentes, a quantidade de eventos e adeptos cresce vertiginosamente. Em países mais “antigos” no seu gosto por cultura pop japonesa, os eventos são bem tradicionais e já se transformaram, acima de tudo, em um negócio de extrema lucratividade. O público otaku é um público fiel, e, por conta disso, sua presença, bem como seu impulso pelos produtos disponibilizados nas convenções, é certa, o que garante o surgimento e continuação de mais e mais iniciativas nesse ramo.
As convenções geralmente acontecem em escolas, universidades, ou salões de festa. Pelo gosto destinado às animações japonesas ser, em tese, algo inofensivo, a atmosfera dentro dos encontros é extremamente familiar. É um lugar onde a família toda pode se divertir sem se preocupar com, por exemplo, o consumo de bebida alcoólica ou suposto uso de drogas. As atividades presentes são de caráter inofensivo e destinados a qualquer pessoa que os queira praticar. Toda essa energia de bem-estar que as convenções proporcionam é com certeza uma das razões para seu sucesso.
Quando começou?
Apesar de as “convenções anime” serem recentes no Brasil, sua origem já vem de algumas décadas atrás. Sendo o anime e o mangá umas das maiores expressões da cultura pop japonesa, estes não poderiam ter o staus que têm hoje sem antes passar por um longo período de aceitação por parte das pessoas. Dessa forma, as animações japonesas, e sobretudo os quadrinhos, já fazem parte do cotidiano de um japonês há vários anos.
Desde Osamu Tezuka e seu Astro Boy é que os animes e mangás se transformaram no que a gente conhece hoje. Por volta da década de 50 e 60 foi que os quadrinhos japoneses ganharam grande expressão, ainda que já existissem bem antes. Assim, o fenômeno foi ganhando mais adeptos até se tornar o gigante popular que é hoje, num país onde é extremamente normal encontrar um gerente de uma grande empresa no alto de seus trinta e poucos anos, lendo um mangá enquanto volta pra casa calmamente sentado ao seu lado em um trem.
Os fãs que tomaram essa nova manifestação cultural como seu ideal de vida começaram a se organizar em diferentes grupos e a produzir materiais de sua própria autoria. A atividade começou a se espalhar, até que, em 1975, foi realizado o primeiro Comiket, evento que dura até hoje e é o maior do Japão.
Essas iniciativas chegaram ao ocidente mais tarde, sobretudo na década de 90, e hoje têm grande expressão graças à acessibilidade que a internet traz. Afinal, não era nem um pouco fácil conseguir assistir um anime traduzido para sua língua em plena década de 90, quando o único jeito de fazê-lo era encomendar fitas cassetes. Assim, os eventos já se tornaram uma espécie de tradição no meio otaku e são as maiores manifestações dessa “cultura” que podemos ter.
Comiket, a maior “convenção anime” do mundo:
Acontece desde 1975, no Japão, o Comiket, maior evento do mundo cujo tema são as animações e quadrinhos japoneses. O encontro ocorre duas vezes ao ano e reúne cerca de meio milhão de pessoas a cada edição, o que, sem dúvida, é um número do qual os eventos brasileiros ainda passam longe. O encontro tem como propósito a compra e venda de dōjinshis, os mangás produzidos por fãs de maneira independente. O Comiket é tão grande que os organizadores disponibilizam, de diferentes formas, um mapa com a localização de absolutamente todos os estandes, com nome do grupo que produziu o dōjinshi, bem como fotos e outras informações. Sem o mapa, a tarefa de aproveitar o evento se torna impossível.
Dá pra ter uma ideia do tamanho do evento
Apesar do tamanho e do enorme contingente de dinheiro circulante, o Comiket não se assemelha aos eventos brasileiros na realização de shows e outras atividades mais. O encontro serve quase que unicamente para a compra e venda de dōjinshis, e os otakus japoneses com certeza não vão ao Comiket para fazer amigos ou coisas do tipo, o que, pra nós, pode parecer muito chato.
A realização acontece em agosto e dezembro, cada uma com novos autores e estandes. A pluralidade dos mangás encontrados no Comiket é praticamente infinita, e se seu objetivo é encontrar histórias, estilos de desenho ou autores dos mais bizarros possíveis, esse é, definitivamente, o lugar certo.
A “cultura otaku” aqui e lá fora:
Quando ouvimos falar de um “otaku” no Brasil, logo pensamos se tratar de uma pessoa que aprecie a animação japonesa em geral. No entanto, não é bem esse o significado verdadeiro que a palavra tem no seu país de origem. No Japão, como já expliquei um pouco mais detalhadamente em um outro artigo, os otakus são pessoas que alimentam um vício extremo sobre qualquer coisa. Dessa forma, sua vida social e psicológica é totalmente abalada em detrimento do seu vício. Portanto, no sentido original da palavra, são otakus as pessoas viciadas em alguma coisa que as faça regredir socialmente. Assim, no Japão, um otaku pode ser uma pessoa que colecione bonecos, computadores ou tenha vício em jogar videogames, e não só aquela pessoa que goste de animes e mangás.
Aqui no Brasil, a forma como a “cultura otaku” funciona é extremamente diferente da forma como elas o fazem lá foram. Primeiramente, podemos considerar os otakus brasileiros como uma tribo urbana, mas não como outra qualquer. Ao contrario das outras tribos, que só aceitam pessoas que realmente gostem e cumpram com um movimento em comum, os fãs de animação japonesa brasileiros são totalmente permissíveis. Dessa forma, não importa se você é um metaleiro, emo ou colorido, apenas o simples ato de gostar da cultura japonesa já o faz aceito entre os otakus. O crescimento da tribo se deve muito a essa característica tolerante que ela tem com as demais tribos, o que a torna simpática e interessante.
Da mesma forma como esse aspecto ajuda no crescimento da cultura japonesa e seus fãs no Brasil, ele também o descaracteriza, inevitavelmente. É claro que, se o grupo começa a aceitar e permitir os mais diferentes tipos de manifestações dentro dele, isso acaba por deturpar sua originalidade inicial. Dessa forma, é muito fácil de encontrar pessoas dos mais diferentes tipos se considerando otakus. Com certeza, essa é uma das únicas tribos urbanas, se não a única, que possui uma diversidade tão grande de integrantes e age de forma tão liberal, por assim dizer. Tal diversidade, por um lado, faz com que a manifestação cresça, mas, por outro, ajuda na sua perda de identidade.
Ele se casou com uma personagem e transmitiu a cerimônia ao vivo. Até onde será que o fanatsimo pode ir?
Diferentemente dos fãs brasileiros, os fãs japoneses ou americanos fazem o estilo do otaku mais voltado para um lado não tão socialmente agradável como o nosso. Os fãs japoneses, principalmente, não se consideram como um verdadeiro grupo cujas motivações e interesses devem ser honrados — aliás, o termo otaku por lá é uma denominação de cunho negativo. Os otakus pelo resto do mundo não ligam se fazem parte ou não desse movimento, se é que ele existe para eles. Foi só aqui no Brasil que ele ganhou um status diferente dos demais países, onde é tratado por seus integrantes mais radicais como um verdadeiro código de conduta a ser seguido.
O caráter intimista e underground é inevitavelmente mais visível nos fãs de outros países, que muitas vezes não compartilham do caráter extrovertido dos brasileiros. Principalmente no Japão, os otakus são pessoas que não se relacionam bem socialmente, o que os faz incapazes de se sentirem bem com os outros. Dessa forma, os eventos direcionados a eles, ao contrário dos brasileiros, prezam pelo lado mais prático e informacional apenas no que diz respeito ao seu vício.
Ao contrário das convenções brasileiras, onde a interatividade entre os participantes e a oportunidade de encontro entre pessoas de gostos em comum é o verdadeiro foco, as iniciativas estrangeiras prezam apenas por dar ao seu frequentador atividades de cunho mais técnico e realmente proveitoso, como palestras, discussões e exibições. Obviamente que, por ser justamente do gosto inofensivo, os encontros estrangeiros ainda têm muito do que remete à interatividade proposta pelos eventos daqui, porém não com a mesma intensidade.
Todas essas diferenças entre os fãs contribuem para a extrema diferença entre a organização e execução das “convenções anime” aqui e lá fora.
Eventos estrangeiros. Qual a diferença?
A maior diferença entre os eventos realizados em outros países com os realizados por aqui é, sem dúvida, a diferença no público-alvo. Enquanto as iniciativas brasileiras miram em qualquer tipo de público jovem, as iniciativas japonesas ou americanas, por exemplo, preferem tender para o exclusivo lado do fã hardcore. Dessa forma, as atrações oferecidas se diferem quase que totalmente. As convenções estrangeiras têm como característica marcante o seu objetivo em oferecer algo concreto para o frequentador. Assim, seus participantes têm sempre uma razão maior para apreciá-los sem necessariamente se basearem nas diferentes ralações que podem estabelecer com outras pessoas ali dentro.
Em linhas gerais, os fãs brasileiros que frequentam uma “convenções anime”, na maioria das vezes, não estão muito preocupados no que ela oferece, e só participam como uma forma de encontrar e fazer amigos. Sem dúvidas que não há mal algum em pensar dessa maneira, o que inevitavelmente faz os encontros mais populares; no entanto, não é bem desse jeito que os fãs de outras partes do mundo normalmente pensam.
Da mesma forma como acolher pessoas de diferentes tribos faz com que a “cultura otaku” perca um pouco de sua identidade, se é que ela realmente existe, esse caráter interativo que move os fãs brasileiros faz com que os eventos sejam uma espécie de ponto de encontro, acima de qualquer outra coisa, diferente dos fãs estrangeiros, que, antes de tudo, consideram o que vão poder aproveitar pelas atrações que realmente dizem respeito aos seus gostos. Assim, os eventos estrangeiros investem forte em convidados especiais, palestras, shows e salas temáticas que só têm como objetivo a animação japonesa, e apenas ela.
Não é difícil encontrar um evento americano como, por exemplo, a Anime Expo, que sempre traz autores de mangá e animadores como convidados especiais, o que respeita sua inciativa original de ser um evento voltado para esse público. O foco está sobre o anime e mangá, e não sobre cosplays, cantores, salas temáticas de outros assuntos e tantas outras coisas que os eventos brasileiros parecem dar prioridade.
Um verdadeiro carnaval:
Infelizmente, já não é de hoje que as “convenções anime” brasileiras deturpam o seu real significado. O propósito inicial em compreender um público que originalmente aprecia apenas animações e quadrinhos japoneses se perdeu na mesma proporção com que a identidade foi sendo alterada. Hoje em dia, os eventos por aqui não acontecem mais com o propósito o qual recebem seu título de “evento de anime”, e tendem para todos os lados, sejam eles da cultura pop japonesa ou não, menos para o que inicialmente se propunha. Os principais destaques em um encontro cujo tema é animação japonesa, ironicamente, são os cosplays, os shows de bandas que muitas vezes não dizem respeito à música japonesa, as lojas ou qualquer outra coisa.
O público que passou por uma mudança durante os anos demandava diferentes atividades que compreendessem seus gostos mais particulares e que muitas vezes nada tinham a ver com o propósito inicial dos encontros. Um encontro desses, sem dúvida, é bem lucrativo, e as organizações, visando atender um público maior e, consequentemente, ganhar mais dinheiro, começaram a se dedicar a eles, se esquecendo completamente sobre o que deveriam ser na verdade.
Além disso, a extrema homogeneização virou regra. É totalmente comum ver as mesmas atividades serem praticadas por praticamente todas as convenções. A criatividade em fazer com que o encontro realmente tenha algo de diferente pareceu se esvair conforme a fórmula de sucesso crescente se mostrou verdadeira e na medida em que mais pessoas frequentam essas inciativas sabendo que são realmente poucas as novidades, com exceção dos shows e outros fatores mais que também não dizem respeito às animações japonesas em si.
Não há problema nenhum em as “convenções anime” possuírem fatores que atraiam vários tipos de tribos e movimentos, afinal, isso contribui para que elas conheçam a cultura japonesa e a faça mais famosa. No entanto, o grande problema é quando essas atividades diferentes do tema central começam a tomar seu lugar e a transformá-lo em uma grande mistura.
Infelizmente, o conceito de “convenção anime” já não é mais o mesmo, e hoje se assemelha a uma espécie de carnaval, onde toda sorte de gostos e valores podem ser encontrados.
E então:
Bem, espero não ter ofendido ninguém com o que foi escrito. Tive a intenção apenas de descrever a atual situação do tema, ainda que seja impossível ausentar minhas percepções sobre o assunto.
Como já virou praxe, o texto ficou maior que o anterior, o que não sei se é algo para se comemorar ou não. No entanto, um assunto que tem tanta influência na concepção otaku brasileira, tem sim uma grande importância, a meu ver.
E nosso próximo assunto nos remete à bizarrice de sempre que a cultura japonesa nunca deixou de ter: Comidas Estranhas! Afinal de contas, não é todo país que possui pirulitos sabor polvo, não é verdade?
Espero todos no próximo programa ou artigo, até!
Publicação original de 03/09/2011. 7 imagens desta publicação não sobreviveram à migração de 2013.