Resenha de Rasasakura, de shiki∞project ~Kokozorashi oni Inbō~ (Metal Rod Label, 2011). Nota: 8,5.
Lançamentos póstumos são sempre facas de dois gumes. O desejo sincero de dar aos fãs materiais totalmente inéditos de um querido artista falecido pode e, geralmente, tem imperativos comerciais bem menos nobres. Jimi Hendrix, mesmo décadas após sua morte, ‘lança’ CDs e DVDs quase que anualmente. Caso mais polêmico, Michael, álbum post-mortem de Michael Jackson lançado em 2010, foi contestado até pelos filhos do pop star, que duvidam se muitos dos vocais gravados foram realmente feitos por Michael.
O shiki∞project é mais um capítulo para estas histórias frágeis. Inicialmente, tudo ligado ao projeto do eterno ex-Kagrra,, Isshi, havia sido cancelado quando do anúncio da morte do vocalista. Agora, até um álbum chegará às lojas no final de novembro.
Caça-níquel ou não, Rasasakura é um single coerente que poderia ter chegado ao mundo em circunstâncias mais felizes.
As dúvidas quanto a que sonoridade os integrantes do Kagrra, adotariam após a dissolução da banda são parcialmente respondidas por Isshi. Tantos anos juntos produzindo canções dentro daquela mistura de visual rock com tradições nipônicas provavelmente resultaram em cacoetes entranhados no processo de composição musical do cara. A faixa-título é puro Kagrra, clássico.
As guitarras, baixo e bateria (digital, por sinal) reproduzem fielmente o estilo de tocar de Shin, Akiya, Nao e Izumi. Até o koto aparece discriminadamente. Pode parecer uma canastrice abissal, mas “Rasasakura” é, tranquilamente, superior a quase a totalidade dos lançamentos pós-Miyako, álbum de 2004. A qualidade tosca da gravação dá um charme especial, recriando toda a atmosfera da fase indie que consagrou clássicos como “Kotodama”, “Yume Izuru Chi” e “Sakura Maichiru Ano Oka De”.
“Shi no Kuni” também bebe do passado. Tem compassos marcados e paradas dramáticas. Um pop rock midtempo simples e eficaz. Para realçar o gosto de nostalgia, “Shirakuen” aparece em três versões. A única essencial, “Shirakuen~acoustic version~”, provoca arrepios em qualquer um que tenha um coração batendo no peito.
A única surpresa são os traços de MALICE MIZER (!) em “Kanashi Urameshi Ana Itoshi...”. Totalmente inesperada, a música tem muito do caracterizou o som da trupe do Mana nos álbuns Merveilles e Voyage~sans retour~.
Emocionalmente carregado por todos os poros, Rasasakura é um belo tributo à memória desse talento tremendo que morreu tão jovem. Tente se desvencilhar das memórias para pegar-se apreciando as boas canções pelo que elas são. Que Kureha, o álbum a ser lançado, mantenha o mesmo nível alto deste lançamento.
Publicação original de 04/11/2011.