A grande massa do público que cai no mundo da música japonesa se divide em duas categorias: fãs de visual kei e otakus apaixonados por suas anime songs preferidas. Um ou outro segue por outro caminho — pop, metal, hard rock, indie rock etc. Geralmente passam pela febre intensa de downloads descontrolados e eventos todo fim de semana achando que a música nipônica era aquilo ali e as tias do enka que vestem roupas tradicionais.
Não que isso tenha muito problema. Mas a coisa vai muito além. Um além que provavelmente só os ouvintes de música mais dedicados alcançam. Aqueles que se interessam por detalhes voltam a discos de que não gostaram à primeira ouvida, passam meses ou, às vezes, anos procurando aquele álbum raríssimo e, quando o conseguem, mal controlam a excitação. Gente que tem essa relação sobrenatural com a música. Se você se identificou, provavelmente este texto fala para você.
O iori já mencionou várias vezes grupos antigos, a Flower Travellin’ Band aparece sempre em revistas de classic rock e Damo Suzuki já veio ao Brasil divulgar seu trabalho solo e relembrar os anos de krautrock no Can. Seguindo esses passos, vão cinco dicas de artistas da década de 1970 que, além de possuírem discos interessantes, devem abrir caminhos para outras descobertas.
5. LAZY
Está vendo esses cinco engomadinhos aí na foto? São MICHELL, SUZY, FUNNY, POCKY e DAVY. Nomes que não fariam feio numa lista de integrantes de um grupo pop coreano. Só que os coxinhas são Hironobu Kageyama, Akira Takasaki, Hiroyuki Tanaka, Shunji Inoue e Munetaka Higuchi.
Os moleques eram fãs do Deep Purple (até batizaram o nome do grupo com uma canção dos caras) e queriam tocar hard rock, mas a ideia dos empresários e produtores da RCA era outra. Os vestiram com uniformes cafonas e criaram canções tão chicletes quanto infantis. Eram protótipos ideais de ícones adolescentes.
Com a fama, ganharam liberdade artística. Escreveram suas próprias músicas, assumindo os rumos do direcionamento musical e visual do quinteto. Porém, não foi o bastante. O LAZY separou-se em 1981. Akira e Munetaka criaram o LOUDNESS, Kageyama virou cantor de anisongs, Shunji fundou a gravadora Lantis e Hiroyuki montou o NEVERLAND.
Álbum essencial: O lançamento definitivo da banda é Uchūsen Chikyūgō da década de 1980, quando os moleques já haviam crescido e Munetaka e Akira já formatavam aquele instrumental poderoso que brilharia no LOUDNESS. Mas para respeitar a década específica da matéria, procure Dream a Dream de 1978, o mais maduro da fase boy band. “Jigoku no Tenshi”, bônus da versão remasterizada em CD, é uma pérola belíssima da música japonesa criminosamente esquecida.
4. SHEENA & THE ROKKETS
No meio da década de 1970, a mídia japonesa criou um movimento chamado Mentai Rock. Vale ressaltar que, como quase todo fenômeno musical criado pela imprensa, as bandas do Mentai Rock não tinham nada em comum umas com as outras, só o fato de surgirem de Fukuoka.
Entre THE ROOSTERS, THE MODS e mais uma cacetada de grupos estava o Sonhouse. O grupo de glam rock experimentou alguns minutos de fama e, após seu fim, deu origem a coisas bem legais como o Ruby, Blues Lion ou o Zi:LiE-YA. Mas seu filhote ilustre é o SHEENA & THE ROKKETS.
O guitarrista do Sonhouse, Makoto Ayukawa, achou que seria legal montar uma banda com a sua namorada (sim, a SHEENA do nome). Lançaram discos no Ocidente, eram amigos dos Ramones e Elvis Costello, tornaram-se uma instituição do rock. Provavelmente um dos grupos mais influentes do estilo no Japão. A banda continua ativa até hoje. Comemoraram trinta anos de carreira com o álbum JAPANIK em 2008.
Álbum essencial: O segundo álbum, autointitulado no Japão e Sheena And The Rokkets in the USA no Ocidente, traz os hinos nervosos que elevaram os caras ao sucesso. Chegou às lojas em 1979 tomando de assalto o público de contemporâneos punk como os Ramones ou o The Stranglers.
3. 8 1/2
Difícil dizer que país não se apaixonou com o poder de fogo do movimento punk no fim da década de 1970. O Japão tinha sua própria cena, os Tokyo Rockers. Nomes como Mr. Kite, FRICTON, LIZARD, s-ken e THE PAIN eram abraçados por selos undergrounds como o City Rockers ou a Pass Recordings. O impacto cáustico desses desordeiros de olhos puxados foi registrado no filme Rockers, a Blank Generation de Hideaki Tsushima.
O 8 1/2 (não confundir com o 8½ finlandês) estava no meio desse movimento mas pareciam totalmente perdidos. Diferente das caras de maus dos desordeiros ligados ao cenário, Shingo Kubota, Toshiro Sensui e Kōji Ueno mal conseguiam esconder a felicidade de receberem alguma atenção do público. Eles não pareciam punks e também não soavam punks, como ficou claro no primeiro e único lançamento do grupo.
Álbum essencial: 8 1/2 de 1979 (ou Mémoire em seu relançamento na década de 1990) tinha de tudo: “Shōnentachi” era rock de arena, “Odorenai” trazia sintetizadores synthpop como os de Gary Numan, “KINEMA no Yoru” era balbuciada por vocais de zumbi. Traços de new wave surgiam no meio de andamentos estranhos e quebrados.
O lado-b do vinil guardava as pérolas que apontavam para o direcionamento musical tomado pelo avant-garde oitentista japonês, as bizarras “Mémoire”, “Sono E o Fumu na”, “Kaigenrei” e “BEDROOM QUEEN”. Um caldeirão grotesco com as referências anteriores, jazz, hinos patrióticos, teclados teimosos e barulho. Se você tem boa memória e um pouco de intimidade com o cenário musical japonês da década seguinte, deve ter reconhecido os nomes. Ueno e Sensui gravitaram em torno da genial Jun Togawa, tanto na carreira-solo quanto no YAPOOS e GUERNICA.
8 1/2 virou um daqueles discos cultuados mesmo porcamente produzidos, totalmente low-fi e impossíveis de conseguir graças ao estopim de toda uma explosão cultural que provocou. Curioso, muitas vezes engraçado, essencial.
2. Sadistic Mika Band
O Folk Crusaders de Kazuhiko Katoh era um dos expoentes mais conhecidos do boom folk que tomou o Japão na década de 60. Como quase todos os outros artistas rotulados com essa etiqueta, Kazuhiko produzia músicas tranquilas e agradáveis. Essencialmente mansas.
Desfrutando das maravilhas do sucesso, Kazuhito resolveu montar um grupo de rock nomeado em paródia à Plastic Ono Band e pela paixão um pouco excessiva de sua esposa em cortar frangos. A Sadistic Mika Band além da Mika, a cônjuge sado, trazia Hiro Tsunoda do Foodbrain, Yukihiro Takahashi que formaria a Yellow Magic Orchestra e mais outros membros que pouco tinham em comum.
O début dos caras era um caldeirão com toques de música da década de 1950, pop, rock e retro. No entanto, o que chamava mais atenção não era essa mistura, única por si só na época, mas a excitação que exala das canções. Tudo soa fora de controle e excessivo. Maníaco. Ian MacDonald do New Music Express criaria uma das frases icônicas do jornalismo musical para descrever a banda: “eles fazem o The Stooges parecerem o Amadeus String Quartet”.
Por mais estranho que pareça, Sadistic Mika Band era exatamente isso. Um proto-punk sob o efeito de anfetaminas, muito doce, bobamente feliz, quase psicótico. Febril.
Álbum essencial: Sadistic Mika Band fez barulho. Foi lançado pela Harvest no Reino Unido, chegou às mãos de Malcolm McLaren e Vivienne Westwood indo parar na coleção de Bryan Ferry, que contratou a banda para abrir shows de uma turnê inteira do genial Roxy Music.
Gabaritada, a banda começou às gravações de Kurofune na Inglaterra, tendo como vizinhos de estúdio o Badfinger que gravavam Wish You Were Here — Mika participaria do disco na faixa “Know One Knows”.
Kurofune não resultou no clima roqueiro doentio de Sadistic Mika Band. A banda parecia preocupada em trabalhar dinâmicas em experimentos mezzo progressivos mezzo pops. A abertura do álbum já revela essas diferenças, “Sumie no Kuni e” tem cascatas de teclado e a voz tranquila de Kato, sendo mais easy listening que qualquer coisa no début, mas sem perder o experimentalismo.
A banda ainda tem um pouco daquela energia louca, como aparece em “Time Machine ni Onegai”, mas soa audaciosa e madura em vez de rebelde e adolescente. Descamba para o funk em “Hei made Hitottobi”, música tradicional nipônica em “Yoroshiku Dōzo”, arranjos sexuais como os de Serge Gainsbourg em Melody Nelson na “Nanika ga umi o Yattekuru”, balada folk com cara de Pink Floyd em “Sayonara”.
Após Kurofune, a Sadistic Mika Band lançaria alguns outros discos até Mika e Kazuhiko se divorciarem. Vez ou outra a banda era encarnada com outra frontwoman por diversão — tiveram Kaela Kimura, Yumi Matsuoka e Karen Kirishima ocupando o cargo de Mika. E assim foi até Kazuhiko Katoh cometer suicídio num hotel em 2009, deixando uma carta sinistra em seu quarto.
1. J.A. Caesar
Shūji Terayama representa perfeitamente no Japão o papel do cinema de autor criado pela Nouvelle vague na França dos anos 1960. Filmes intransigentes com os modelos narrativos do cinema popular, amorais, inesperados e não-lineares. A própria persona de Terayama vestia bem os sapatos do cinema de autor – era poeta, dramaturgo, escritor e fotógrafo.
Porém, um dos grandes erros de fãs desses cineastas é omitir os verdadeiros entourages que os acompanhavam. Técnicos, montadores, câmeras e músicos fiéis e de importância inclassificável para a produção dos clássicos que amamos. E aí entra J.A. Caesar.
Caesar (também chamado de Seazer) era parte do Tenjō Sajiki, trupe independente de teatro liderada por Terayama e ativa de 1967 até a morte do cineasta em 1983. Atuando fundamentalmente no undeground, os trabalhos do grupo eram marcados por erotismo grotesco, experimentalismo, influência do folclore, provocação social e aquelas figuras sinistras que quem já assistiu Tomato Ketchup Kōtei ou Den'en ni Shisu deve se lembrar.
O músico era responsável tanto por músicas incidentais como por verdadeiras óperas rock, cheias de tensões motivadas em desenrolar os enredos espinhosos de Terayama. Obviamente, o cara também trabalhou em outras áreas. Os fãs de Suehiro Maruo já o ouviram na adaptação animada Midori e boa parte das canções de Revolutionary Girl Utena leva a assinatura do cara.
Álbum essencial: Corra atrás de Jashumon e Kokkyō Junreika. Ambos trilhas para criações de Shūji Terayama. Como são? Uma orgia musical envolvendo invocações aos deuses, cantos religiosos, mantras budistas, guitarras pesadíssimas, proto-metal, psicodelismo, rock progressivo, música de orquestra e sons vagabundos. Algo como se o Zé do Caixão começasse a usar cogumelos e montasse uma banda com os caras do Faust ou Amon Düul II criando só faixas em tons menores.
As capas estranhas já dão uma pista do quão loucos são estes dois discos. Caesar se basea no rock para criar músicas que não fariam feio como trilha-sonora para o apocalipse. É tudo completamente bizarro, surpreendente e instigante. Sinistro e funesto. Sem fronteiras. Nos primeiros segundos em que “Echigo Tsutsuishi Oyashirazu” ou “Hanadama” começarem a tocar, você vai entender que todos esses montes de substantivos e adjetivos exagerados que eu escrevi vão fazer mais sentido do que nunca.
Publicação original de 22/08/2011. 10 imagens desta publicação não sobreviveram à migração de 2013.