Passada a comoção nacional após o massacre de Realengo, é hora de discutir algumas questões que foram postas à luz após o ocorrido. Como de costume, após um caso de tamanha repercussão, a mídia faz ampla cobertura durantes alguns dias e, logo após, deixa questões importantes decorrentes destes acontecimentos serem esquecidas. Mas a emoção passou. É hora de, sob a luz da racionalidade, debater alguns pontos que merecem ser novamente destacados. Iremos começar pelo o que parece ser a cerne de todo este crime: o bullying.
Após “gordinho Zangief”, foi a vez de Wellington
Casey Heynes, também conhecido como gordinho Zangief, ficou famoso após aparecer em um vídeo em que ele reagiu com violência às provocações que sofria desde os 8 anos de idade. Rapidamente, o vídeo alcançou milhares de exibições na internet. Logo após, o caso foi noticiado pelos jornais de todo o mundo. O menino que antes era solitário e rejeitado se tornava um “herói mundial” na luta contra bullying.
Meses depois, manhã de 7 de abril: Wellington Menezes de Oliveira, 24, entra no seu antigo colégio, a escola municipal Tasso da Silveira, em Realengo, zona oeste do Rio. Munido de dois revólveres, ele invadiu duas salas de aula e matou 12 estudantes. O assassino teria feito mais vítimas se não fosse a ação de um policial militar que disparou contra Wellington, que se matou logo em seguida. Dias depois, a polícia recuperou vídeos do computador do jovem, em que ele dizia que o ocorrido serviria de lição para que as autoridades descruzassem os braços diante do bullying.
O que estes dois casos têm em comum? A resposta violenta e injustificável das vítimas de bullying. É claro que não tem como comparar Wellington com Casey, porque é certo que o primeiro sofria de distúrbios mentais. Contudo, não se pode fechar os olhos para a interseção que une os dois eventos. Os dois responderam a opressão que sofriam com violência. Em ambos os casos, o bullying é um ciclo retroalimentativo, onde a violência gera mais violência.
A atitude do gordinho Zangief não deve ser exaltada. Aliás, este próprio apelido de “Zangief” tentar dar um tom de humor a uma coisa que é dramática. Diariamente, estudantes como Heynes são postos em situações humilhantes por “colegas” e pouco se vê alguma movimentação do governo ou de escolas em relação a isso. Há também muito receio das vítimas de bullying em procurar ajuda, o que dificulta mais ainda o cenário.
Não se pode afirmar que o massacre de Realengo foi motivado somente por bullying. Mas que foi a enzima de todo o processo, isto é inegável. Em suma, o combate ao bullying precisa ser priorizado antes que apareçam outros Wellingtons que irão vitimar mais inocentes.
Games, os eternos culpados
Não é a primeira vez que a grande mídia, após um assassinato em massa, envolve o criminoso ao universo de games. Foi assim com o caso de Mateus da Costa Meira, o “atirador do cinema”. Em 1999, em São Paulo, o jovem entrou em uma sala de cinema de um shopping, sacou uma submetralhadora Cobray M-11 e efetuou disparos contra os presentes no local. Três pessoas morreram no incidente. Na época, veiculou-se na mídia que Mateus teria sido influenciado pelo jogo Duke Nukem 3D, no qual há uma cena de tiroteio dentro de um cinema.
Agora, o tradicional jornal da elite carioca, O Globo, em sua versão online, publicou matéria ligando Wellington a jogos eletrônicos. Veja trecho da matéria (o grifo é meu):
Os investigadores conseguiram rastrear um blog feito por Wellington, que usava a página na Internet para disseminar mensagens desconexas sobre religião e jogos como GTA e Counter Strike (CS), onde o jogador municia a arma com auxílio de um Speed Loader, um carregador rápido para revólveres, usado por ele no massacre de alunos na Escola Municipal Tasso da Silveira. Nos dois jogos, acumula mais pontos quem matar mulheres, crianças e idosos.
Repare no trecho grifado. Esta parte da reportagem é mentirosa (e isso no jornalismo é imperdoável), pois em nenhum dos jogos citados há o uso do Speed Loader. Além disso, não existem crianças circulando em nenhum dos games. Ou seja, O Globo aproveitou a oportunidade e inventou tudo isso para forçar os leitores a realmente acreditar que a motivação do massacre foram os games. O mais curioso é que a matéria foi editada e o trecho destacado foi retirado da matéria. Por que será?
Mas vamos esquecer a mentira de O Globo e consideremos que games violentos podem realmente influenciar alguém a praticar crimes. Já que pessoas podem praticar crimes motivadas por jogos, elas também podem ser incentivadas por outros tipos de mídias, correto? Então, quem assistir filmes como Um Olhar do Paraíso (2009) pode se sentir livre para estuprar e matar alguém na certeza da impunidade? Ou então quem assistiu 24 Horas de Fúria (2006) vai se sentir influenciado a pegar uma arma e sair disparando contra os seus vizinhos?
Os exemplos acima foram, propositalmente, absurdos. É claro que ninguém em sã consciência vai se tornar um assassino por conta de um filme. A mesma situação se aplica com os games. Nenhum jogador de GTA, é claro, em sua plena sanidade mental, irá sair estuprando ou matando pessoas pela cidade dizendo que fez isto por causa de influência do game.
Já que O Globo considera que as pessoas podem ser facilmente influenciadas, então isso significa que novelas e seriados da TV Globo também podem ajudar a criar novos criminosos? Afinal, é comum ver nessas produções cenas de sexo, violência, assassinatos, corrupção etc. Por que adotar duas medidas para o mesmo peso?
Desarmamento: um “novo” debate?
O senador e aliado do governo José Sarney (PMDB-AP) propôs um novo referendo sobre o desarmamento, motivado pelo acontecimento em Realengo. O assunto é polêmico e gera sempre muita discussão. Como foi dito no início, sempre ocorre no período pós-tragédia uma grande comoção. Aproveitando o cenário, Sarney traz de volta um debate que já teve um “fim” em 2005. Para quem não lembra, naquele ano foi realizado um referendo e 63,94% da população disse que o comércio de armas NÃO deveria ser proibido. Agora, o senado vai discutir se teremos mais um plebiscito para novamente fazer a pergunta que já foi respondida.
Uma consulta popular agora pode ter influência direta do ocorrido no Rio. Será que o governo propondo um plebiscito agora não está se aproveitando do caso, na tentativa de forçar e influenciar a população a votar favorável pelo desarmamento? Fica a questão para a reflexão. Vale lembrar que no último plebiscito, o governo era favorável ao desarmamento.
Não se quer adotar aqui um posicionamento favorável ou contrário ao desarmamento. O que se quer apontar é como o massacre de Realengo está sendo usado como pano de fundo para mover interesses políticos.
É claro que a proibição de vendas de armas no Brasil poderia ajudar na redução de crimes e mortes. Imagine no número de mortes decorrentes de brigas fúteis que poderiam ser evitadas. Imagine em uma população desarmada que, no papel, não poderia reagir a assaltos, reduzindo o número de mortes.
Mas também é impossível esquecer que a grande parte das armas em poder dos bandidos tem origem clandestina. Sendo assim, por que o governo, além de investir milhões de reais em um novo referendo, não investe no monitoramento das fronteiras e na segurança pública?
Estas são questões que não podem ser esquecidas. Mas, tudo bem. A mídia agora está ocupada demais cobrindo a lua de mel do Casal Real.
Publicação original de 11/05/2011. 3 imagens desta publicação não sobreviveram à migração de 2013.