Há muito tempo, numa galáxia muito distante, uma criança anônima escreveu algo sobre zumbis e, hoje, resolveu fazer um remake de suas próprias palavras. Este post explicará um pouco sobre a origem da palavra zumbi, já que muitos confundem o significado e acabam trazendo isto para o mundo dos games. Você já escutou ou leu o termo “pseudofã”? Pseudofã, pra quem não sabe, é uma maneira criada para denominar alguém que se diz fã de algo, mas sem conhecer a fundo. Há alguns anos, venho notando que algumas pessoas abusam das palavrinhas mágicas, transformando-as em uma forma de ofensa de baixa categoria, apenas para minimizar a pessoa que tem uma ideia contrária a de outrem.

Após o lançamento do jogo Resident Evil 4, inicialmente exclusivo para o GameCube, muitas pessoas que nem sonhavam em jogar Resident Evil acabaram entrando de cabeça na série. Esses “new-gens” (gamers da nova geração) elogiavam o jogo, que, por sua vez, era odiado pelos fãs dos primeiros jogos da série. Várias discussões em fóruns, ou até mesmo no Orkut, ocorreram entre ambos os fãs. E onde a conversa parava? “Resident Evil não é mais o mesmo! Gostava dos zumbis, agora tem ganados.” E qual era a ofensa usada contra os new-gens? “Você é um pseudofã.”

Mas quem disse que Resident Evil 4 não tem zumbis? Calma, vou explicar tintim por tintim.

A origem da palavra “zumbi”

Engana-se quem pensa que os zumbis surgiram de uma língua africana, como diz a Wikipédia. O que importa não é a forma como se define algo, e sim, o que o é, ou faz ser. O primeiro texto a conter vestígios sobre mortos-vivos foi o Épico de Gilgamesh, escrito na antiga Mesopotâmia, por volta do século VII a.C., com o seguinte texto:

Pai, entrega-me o Touro do Paraíso
Para que ele possa matar Gilgamesh em sua casa
Se não me deres o Touro do Paraíso
Irei derrubar os portões de Netherworld
Irei quebrar os batentes e derrubar as portas
E deixarei que os mortos se levantem para comer os vivos
E os mortos estarão em maior número que os vivos

A palavra “zumbi” é originada de “nzumbi” ou “nzambi”, que, em alguns idiomas do oeste da África (sim, existem vários idiomas pelo continente), quer dizer “divindade” ou “espírito ancestral”. Com toda a história de encarnações, reencarnações e tudo mais, algumas crenças populares dizem que zumbis são seres que vagam por aí, sem motivo. E tem algo que dê mais medo que algo sem alma? Pensem comigo. Se é difícil lidar com Hannibal, aquele canibal superinteligente feito de carne e osso, quem dirá com alguém que não se importa com suas dores, angústias e sofrimento? Não ter alma, não ser humano e não ter compaixão, é o que realmente assusta.

Em 1797, Médéric Louis Élie Moreau de Saint-Méry comentou sobre esses zumbis africanos, mas de forma mais direta e discarada, dizendo ser um termo crioulo para fantasmas e espíritos, tentando simplificar ao máximo a palavra. Mas é claro que ele levantou outra questão ao dizer a palavra “revenant”, que em português quer dizer “retornar”.

Na década de 20, o bônus do zumbi comedor de carne foi adicionado, mas foi a partir da década de 30 que alguns filmes exploraram mais o terror psicológico, acrescentando outras características aos zumbis; como exemplo, temos o filme White Zombie (1932), no qual vemos uma mulher sendo controlada com uma espécie de vudu. E o terror não parou por ali! Alguns filmes da década de 50 também foram lançados com a mesma história de antes: o ser controlado sem alma, chamado de zumbi.

Resumindo, o simples fato de ser controlado, não ter alma nem sentimentos já faz um zumbi ser zumbi. Vou ainda mais longe! Um zumbi é zumbi ao de agir por impulsos, sem medir consequências, sendo ou não controlado por algo. O famoso animal irracional.

E onde entra Resident Evil 4?

Resident Evil começou como uma série claustrofóbica de survival horror, mas tentando ao máximo, mesmo com poucos recursos, mostrar o terror biológico em junção ao animal irracional comedor de carne. Isso fez com que muitos fãs colocassem aquilo como verdade suprema absoluta, o que é uma pena. Um jogo é muito mais que um jogo (estranho, não?), e tudo o que consta dentro do mesmo, têm vestígios de uma história que muitas vezes é desconhecida por muitos.

Em Resident Evil 4, uma decepção para os fãs da série, temos os ganados, seres controlados por parasita. O nome dado a eles vem do espanhol, que, em português, quer dizer gado. A vila onde vivem os ganados tem uma forte semelhança com um caminho de abatedouro, e notamos que todo aquele mapa foi pré-moldado e não existia antes da dominação do povo do vilarejo, o que nos faz pensar se aquilo realmente foi algo para dizer “Oi, sou controlado por um parasita e por tudo o que está ao meu redor”, já que o parasita só faz metade do serviço, neste caso. Lembrando que outros inimigos possuem o parasita, mas nenhum é chamado de boi/vaca só pelo fato de ter “Las Plagas”.

Ganados, garradores e outros inimigos podem ser chamados de zumbis, com certeza! Além de estar num contexto mais bem posicionado e relacionado as origens do termo de forma direta, Resident Evil 4 conseguiu unir a ação, o antigo zumbi e o terror biológico. É óbvio que tal inovação fez com que Resident Evil perdesse suas próprias origens, mas isso não o torna um péssimo jogo.

Só para finalizar, muitos aqui dirão que Leon, logo no início de Resident Evil 4, checa o corpo de um ganado e diz “He is not a zombie”, mas ele não é especialista, não sabia que eles eram controlados e muito menos da existência de Las Plagas. Fora o fato de que ele passou por um trauma e tanto em Raccoon City, como policial novato.

Posso aplicar isso em outros jogos?

Claro! Quem nunca viu um fantasma sem rumo em Fatal Frame ou Clock Tower, daqueles que atacam sem motivo e não pensam? Todos nós já vimos. E sim, são zumbis, até mais que os carnívoros.

Só pra constar, adorarei recados do tipo “Você nunca jogou Resident Evil”. Darei boas risadas, pode ter certeza disso.


Publicação original de 07/03/2010. 2 imagens desta publicação não sobreviveram à migração de 2013.

Compartilhar
Comentários
0 comentários