Resenha de RAZZLE DAZZLE, de BUCK-TICK (ariola, 2010). Nota: 10,0.
Era uma vez o BUCK-TICK tomando uma cerva. Um deles disse: “ei, que tal lançarmos o álbum do ano?”. Meses depois, olharam pro resultado, e eis que era muito bom.
BUCK-TICK não é daquelas bandas que você pensa: “Oh, céus! será que o próximo álbum vai ser bom?”, mas a surpresa é sempre uma convidada de honra pros fãs do clássico quinteto. E em RAZZLE DAZZLE a surpresa é das boas. A banda já vinha preparando os ouvintes pra algo moderno e um tanto diferente do rock’n’roll dos dois últimos álbuns. A expectativa era pra algo no gênero ONE LIFE, ONE DEATH ou “Mona Lisa OVERDRIVE”. Bem, foi algo parecido mesmo. Uma versão repaginada da criatividade dos anteriores.
O ano de 2010 deveria ser classificado — pra música japonesa, pelo menos — como: “ano dos efeitos ‘tuntz tuntz’ e sintetizadores no rock”, e o BUCK-TICK entrou na onda. Todas as faixas têm a presença de edições pesadas e efeitos diversos, nada cru. A introdução te prepara pra algo como um thriller, o que é bem engraçado, porque a música que a segue, de mesmo nome do tema do álbum, não tem nada a ver com isso.
Aliás, vamos parar um pouco nessas primeiras faixas do álbum. “RAZZLE DAZZLE”, juntamente com as companheiras “Kyōki no Dead Heat” e a versão do álbum de “Dokudanjō Beauty”, são um tanto quanto desconexas, se comparadas com o restante do álbum. Isso não fica claro na primeira vez que se ouve, porque você que acompanha o BUCK-TICK já está acostumado com faixas como essas, e também porque você já estava acostumado com a “Dokudanjō Beauty”. Mas analisando essas três faixas, todas enérgicas e com um clima totalmente leviano e pouco intenso, elas parecem pertencer a outra dimensão. No entanto, são boas faixas, cada uma com sua graça específica. Numa opinião pessoal, “Dokudanjō Beauty” era mais interessante em sua versão original, mais elétrica e sem o backvocal de “patricinha fogosa” que eles puseram no refrão. Nada tão grave, a música ainda é boa.
Depois dessas três supracitadas, o álbum esquenta e surpreende. “Hamushi no yō ni” é simplesmente encantadora. Tem um toque até meio antiquado, flertando o tempo todo com aqueles efeitos bregas super anos 70, mas é impossível dizer que ela em si não se baste. A polifonia da música e a linha vocal quase delicada-chiclete a fazem uma das mais memoráveis. Se o lançamento não tivesse uma faixa como ”Yōgetsu no Utage”, não seria BUCK-TICK. Os mestres em ritmos envolventes e sensuais botaram mais uma vez as garrinhas pra fora. Eu quase chamei alguém pra dançá-la comigo em uma sala cheia de rosas vermelhas! Belíssima música, linha de baixo gostosa demais de se ouvir, e encaixa nos efeitos de eco muito bem escolhidos das guitarras, junto à linha vocal especialmente sensual. O clima beira a melancolia fria e uma tristeza aparentemente proposital, essa é imperdível.
Contrastando com a sensualidade da anterior, “BOLERO” já faz a linha “gracinha”. O ritmo cheio de leveza e sensivelmente mais limpo no que se refere à efeitos e mixagens resgata bastante do “Tenshi no Revolver” e “Memento Mori”. Segue a fenomenal “Django!!! -Genwaku no Django”. A mais dançante de todas, é impossível não se transportar mentalmente pra outro lugar com essa. Provavelmente, um lugar imaginário bem divertido. Excelente trabalho instrumental, linha vocal descontraída e interessante, uma pena essa não ter um videoclipe, merecia!
“Sakuran Baby” é uma das que mais fazem lembrar os álbuns mais experimentais anteriores, já citados. Segue-a “PIXY”, a mais calminha. É toda envolta por um clima muito gostoso, e os flertes com algo meio tribal em algumas partes, seguido imediatamente por momentos de clima de leveza contrastante foram muito bem explorados, um dos pontos altos do álbum.
A nova cara de “Kuchizuke” deu o que falar dentre os ouvintes apaixonados pela excelente faixa. Anterior single de divulgação do álbum, na segunda versão vem com modificações não tão drásticas, mas capazes de mudar consideravelmente sua atmosfera. De singela, mecânica, beirando uma bizarra melancolia, a música foi pra uma atmosfera confusa, bastante intensa e intrigante. Linhas de guitarra foram suprimidas, o baixo é mais audível e os efeitos de sintetizador comem soltos. Com as novas brincadeiras sonoras, a música se tornou mais complexa, ainda assim um tanto melancólica. Qual versão é melhor, vai depender do que você sente ou gosta de sentir.
“Gekka Reijin”. No momento em que ela começar, você provavelmente vai estar se perguntando: “cara, o que está sendo este álbum?”. Pois é. A essa altura já não se tem mais o que elogiar. Faixa perfeita, bateria perfeita, linhas de guitarra climáticas, linha vocal impecável, refrão imperdível, efeitos cuidadosos. Linda! “Mugen” é parceira de “BOLERO”, tem uma atmosfera fofa igual. “TANGO Swanka” é o momento Imai do álbum. Muito boa, experimentalismo divertido e envolvente. Encerrando o álbum, “Solaris”. Uma gracinha, mas parece estar ali como o que ela de fato é: um encerramento. A linha vocal no refrão principalmente, tem uns cortes meio bruscos, poderia ser mais floreada, mas nada que vá afetar o álbum.
Ótimo trabalho, ótimas experiências intrumentais, belíssima demonstração de maturidade. Agora que você já leu isso tudo, vá ouvir!
Publicação original de 16/10/2010.