Quando eu tinha 10 anos, vi na TV Cultura uma propaganda que trazia uma trilha sonora peculiar para mim, garota provinciana, que morava no interior da Bahia, entrando na puberdade e que tinha tudo para gostar exatamente das coisas que eram mais comuns. A trilha era AC/DC, não me lembro qual a música, mas lembro que eram eles, pois vi a imagem do Angus Young passando rapidamente. Desde então, sofri uma mutação quase genética e tudo que eu tinha ouvido até então parecia ser pequeno e sem graça perto daquele som forte e rápido, aquilo era emocionante, me contagiava.

A primeira música dentro do rock’n’roll que eu realmente ouvi foi “Smells Like Teen Spirit”, de um CD que eu “furtei” de um recém-conhecido. Passei a ouvir mil coisas, estava completamente encantada com aquilo e queria saber tudo, saber mais. Conheci gente nova, fugi de casa no meio da noite para ir a festivais, minha vida se transformou. Com a mudança de som, mudei também alguns hábitos: passei a ler mais — e lia ouvindo rock —, nem ligava mais pro colégio, o que me interessava era música e leitura, passei a escrever. Redação e Literatura, (Além de Educação Física) talvez fossem as únicas matérias em que eu me saía bem.

Passei a ser apresentada a várias pessoas, elas queriam o mesmo que eu: anarquia. Escutava todo o tipo de vertente do rock, desde as grosserias divertidas do punk até a melancolia sedutora do gótico. O tempo ia passando e eu me rotulando mais e mais. Minha adolescência passou, mas minha essência ainda é a mesma. Ouvi muita coisa e vi fases irem e virem, ou apenas adormecerem. Vi todos falando mal dos últimos álbuns do Metallica, assisti a vinda do U2 e a do Rolling Stones ao Brasil pela TV, li livros sobre a Janis Joplin que me fizeram querer ser igual a ela, conheci as poesias de Lou Reed, o power trio The Cream (o início da carreira do Eric Clapton, e a melhor fase da mesma), vi bandas brasileiras ascenderem, conheci o undergound e, como todo bom rocker, eu também quis ter uma banda.

Conheci, o new metal, o blues rock, o thrash metal. Aprendi os nomes das músicas, as letras, escolhi a minha banda predileta (Led Zeppelin, f**k yeah!!!). E, no caminho otaku que eu ia levando, não tardaria até que eu me enconatasse pelo j-rock, lembro de ler muita coisa sobre X Japan e não ter onde ouvir, pois não sabia onde baixar o material ou mesmo comprar. Depois vieram Dir en Grey, L’arc~en~ciel, Malice Mizer, The Gazette, ElDorado, Nightmare e assim por diante. É, eu viciei, e posso com propriedade hoje conversar sobre rock’n’roll com as pessoas. Sempre achei que deveria ter formação para isso (risos).

Eu escolhi o rock e descobri o que fazer dele, e o que fazer da minha vida com ele. Ainda sonho com uma banda (alguns delírios nunca vão embora), quero cada vez mais conhecer coisas novas e de qualidade. Isso é uma parcela do que eu sou, e sei bem que da de muitos outros por aí. Vejo as pessoas conversando sobre música e também quero mudar algumas opiniões, mas desisto logo; o rock é discriminado até dentro de seu próprio círculo de amigos. O punk não gosta do metaleiro, que não gosta do gótico, que não gosta do emo... e por aí vai. Eu gosto é de música e, se ela for assim ou assada, que diferença faz?! Como disse o grande Cazuza: “Não existe música certa ou errada, o que tem é música boa!”. Repassando tudo isso, eu sei qual o significado do MEU rock’n’roll, e sei o que fiz ele ser: eu. Não foi um tipo de música que me mudou, fui eu que mudei o meu tipo de música. Tornou-se minha vida, minha ideologia rasgada sem endereços e codinomes. Isso foi o que eu fiz da minha vida, ela tem meu nome, mas tem o sobrenome que eu escolhi, e estou satisfeita com isso.

Mas e você, o que quer fazer do seu rock?! Feliz Dia Mundial do Rock’n’Roll!

 


Publicação original de 13/07/2010. 1 imagem desta publicação não sobreviveu à migração de 2013.

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