Primeiro, uma epígrafe:
(...) “Tudo o que é ruim para o PT é bom para o Brasil.” [Esta frase] carrega aquela carga de preconceito sem a qual um homem não pode se orgulhar de ser de fato maduro. Crescer é ter direito a preconceitos.
Eu tenho muitos: não gosto de aviões, comida japonesa, comunistas, jazz, solo de saxofone, presidentes semi-analfabetos, especialista em vinhos, pão com gergelim e gente que faz passeata pela paz. Eu faria uma passeata contra a ternura que a classe média nutre pelo crime organizado. Bata branca na avenida é uma forma de covardia e flerte com nossos algozes. (...)
Reinaldo Azevedo, O País dos Petralhas, pp. 74–75
Agora, ao ponto. Felipe Neto, como sói, fez mais um vídeo controverso, desta vez sobre preconceitos. E resolvi dar meus pitacos também, mais porque senti que ou faltaram algumas coisas que eu gostaria de ter visto ali, ou algumas outras não ficaram claras o suficiente. Se ainda não assistiu, assista abaixo. Volto em seguida:
Começo pelo começo: “Todo mundo tem preconceito”. Guarde bem esta frase ao longo do artigo. Todo mundo tem preconceito. Inclusive o preconceito contra o... preconceito, como Felipe bem deixou claro no fim, pré-julgando os preconceituosos ao sugerir que estes querem necessariamente tolher a liberdade alheia.
Aliás, esse lance de “preconceito” virou pau pra toda obra. Sempre que se fala “contra o preconceito”, acaba-se reforçar outros:
- o preconceito é necessariamente algo negativo, perverso, excludente;
- o preconceito “ao contrário” (ex: de pobres contra ricos) é sempre justificável;
- “não concorda com o que penso? Seu preconceituoso!”
Inclusive, o próprio Felipe já abordou estes pontos no passado, ao comentar o atrito, que culminou na perda do título, entre a Miss Califórnia 2009 e Perez Hilton sobre a questão do casamento gay.
Mas tergiverso um tantinho. Retomo. Por que, agora, tanto “preconceito contra o preconceito”? Por que, agora, as pessoas resolveram enxergar “preconceito” em tudo (provavelmente alguns acharam que fiz juízo de valor da postura de Felipe no começo do artigo — falarei mais adiante sobre isto)? Exaltar uma determinada minoria não poderia ser também uma forma de preconceito? As coisas só pioram quando tentam jogar em Felipe boçalidades como “duplipensante”, “duas-caras” e similares, afirmando o preconceito dele contra Justin Bieber, playboys porradeiros, metodismo, etc., totally missing the point.
O preconceito é um dado da natureza humana. Cometemos mais preconceitos do que imaginamos. Felipe deu uns exemplos interessantes — o melhor de todos, by far, foi a mensagem no final do vídeo —, mas é com exemplos mais corriqueiros que passamos a compreender o big picture:
- Em quem você confiaria um trabalho delicado, como a construção de um prédio ou uma cirurgia: a um profissional com ou sem diploma?
- E o que dizer dos céticos em relação ao aquecimento global? (só pra entrar no clima da semana da sustentabilidade =p)
- Você pensa em algo quando olha para uma pessoa de óculos?
- Quais são suas primeiras impressões sobre quem escreve com um mínimo de corretude na Internet?
- E sobre quem escreve de qualquer jeito?
- E as pessoas incapazes de olhar nos olhos das outras?
- Os carros que as pessoas dirigem devem dizer algo sobre elas, não?
- Sem falar nos “newfags” alhures...
“Mas não é exatamente essa a mensagem que Felipe quer passar?” Evidente; como falei, apenas tentei colocá-la apelando menos para classes sociais do que para atos. E vale salientar uma diferença: eu discordo um tantinho da conclusão dele, que me passa a impressão — gostaria de estar enganado — de que o mundo seria melhor se o preconceito fosse “extirpado” do ser humano, quando é óbvio que preconceito não é bom nem ruim “por padrão”. E, vejam só!, no mundo politicamente correto de hoje, os “tolerantes” entenderiam esta oposição minha como, sei lá, apologia à tortura de [insira uma ou mais minorias aqui], além de se encolerizar diante da minha constatação de que o que eles fazem também é uma forma de preconceito.
Estaria eu a condenar a postura de Felipe? Nem de longe. Ele mesmo deixou claro: todo mundo tem preconceito. Inclusive ele próprio. Eu tenho várias opiniões, positivas e negativas, sobre minorias mil e discordo de tantas outras; e, no entanto, no entanto, eu nunca tive a intenção — tampouco interesse — de, parafraseando Felipe, “contaminar a sociedade com a minha imbecilidade”, como fez uma tal de Mayara e como o PT faz todo santo dia. Eis o problema, o verdadeiro problema. Live and let live.
No final das contas, é necessário definir melhor o que é “preconceito”. Ou melhor: possivelmente usarmos outro termo para definir este tipo particular, nocivo de preconceito: aquele que segrega, que marginaliza, que joga indivíduos contra indivíduos. “Preconceito”, como se vê, é um termo excessivamente abrangente, tanto que chego a grafar entre aspas a palavra e expressões relacionadas. E de “abrangência” as ditaduras entendem.
PS: Que história é essa, afinal, de que “Deus pode ser negro?”, Felipe? Deus é negro, ora bolas!!! -q
Publicação original de 21/11/2010.