A mineira Vitória Barros, de 18 anos, é uma típica estudante da Universidade Federal de Minas Gerais. Estuda, faz estágio, sai com os amigos.

Entretanto, ela possui um hobby que tende a crescer cada vez mais entre os jovens brasileiros: ser cosplayer. Um hábito que teve início nas convenções de ficção cientifica dos Estados Unidos em 1939, foi levado para o Japão por Nobuyuki Takahashi na década de 80 e, hoje está espalhado em vários lugares do mundo, principalmente no Brasil. Vamos ver o que mais a Misa Amane, ops, Vitória tem para nos falar desse hobby.

1. O que é cosplay?

Cosplay é um hobby que surgiu nas convenções de quadrinhos e filmes dos EUA. Na verdade, há controvérsias, mas a maioria dos cosplayers (quem faz cosplay) acredita que surgiu entre os fãs de Star Wars, que iam assistir aos filmes fantasiados como os personagens da série. Trata-se da união de duas palavras em inglês: costume (roupa, fantasia) e play (No sentido de praticar, agir), e é justamente um hobby em que nos vestimos e interpretamos personagens de filmes, jogos, animações, etc.

O cosplay envolve tanto a vestimenta quanto a interpretação, embora esta última não seja tão “necessária”.

2. Quando começou a fazer e por quê?

Fiz meu primeiro cosplay em 2006, era a roupa da personagem Misa Amane do recém-lançado (na época) Death Note.

Eu já conhecia cosplays desde que me entendo por gente, já que costumava acompanhar revistas ligadas a cultura pop japonesa, como Anime Do, Animax, Herói e Ultra Jovem. Sempre via aquelas fotos de pessoas fantasiadas, mas achava que era algo totalmente fora da minha realidade, já que não existiam convenções do gênero em BH.

Eis que, em 2005, meus colegas de escola contam que o tão sonhado evento ia acontecer, e boa parte deles ía usar cosplay. Eu estava totalmente sem dinheiro na época, e minha mãe também achava meio esquisito, pensava que eu seria a única “fantasiada” no meio das pessoas e chegou a me acompanhar no primeiro dia de evento. Constatamos não só que boa parte das pessoas usava cosplay, como também se divertiam muito e tinham uma boa interação com o público! Meus amigos não paravam de tirar fotos e muita gente parava para falar com eles, discutir sobre a série e eu quis participar daquilo. Acabei escolhendo alguns personagens com quem me identificava e fiz meus primeiros cosplays.

3. Você participa de concursos? Já ganhou algum prêmio?

Sempre que posso, participo. Ganhei vários prêmios em várias categorias como a de melhor roupa e melhor apresentação.

4. É fã de algum cosplayer?

Admito que gosto muito do trabalho da Kipi, uma japonesa famosa pelo rostinho de boneca e que se tornou tão conhecida no mundo inteiro que passou a representar, oficialmente, uma das personagens de quem faz cosplay.

5. Você já fez a caracterização de quais personagens? E qual é seu favorito?

Nossa, é uma lista enorme. Mesmo porque faço alguns cosplays apenas para fotos. Meu personagem favorito para fazer cosplay é o Allen Walker, personagem do mangá D.Gray-man. Nos parecemos bastante fisicamente, e gosto da personalidade dele. Fiz duas roupas que ele usa ao longo da história e planejo fazer mais uma em breve.

6. Quais são seus futuros cosplays?

Atualmente, estou trabalhando na Sakuyamon, de Digimon Tamers.

7. Algumas pessoas montam grupos para apresentar. Você também tem um?

Não gosto muito de fazer grupos porque nunca me deram sorte. A incompatibilidade de horários é comum então é difíicil ensaiar. Além da necessidade de termos roupas iguais, o que nos faz gastar um pouco a mais na maioria das vezes.

8. Você acha que existe alguma “panelinha” que acaba sendo privilegiada nesse meio? Há muita rivalidade?

Acho que o grupo que muitas pessoas veem como “favoritos” são, na verdade, pessoas que se empenham muito no cosplay, e o resultado surge na premiação. São pessoas com experiência e que sabem o que é possivel, o que fica bonito. Recentemente, surgiram alguns cosplayers em BH que andam roubando a cena, e muitos desses que ganhavam frequentemente andam passando longe do pódio.

9. Durante o ano de 2010, houve a seleção do WCS e você tentou uma vaga, certo? Explique o que é e o que a motivou a participar.

O WCS é o grande evento de cosplay do mundo inteiro. Quis ir porque é a chance de colocar tudo o que aprendi à prova e mostrar as habilidades de interpretação frente a frente com os melhores do mundo e receber o reconhecimento pelo árduo trabalho que o cosplay envolve. Além, claro, da chance de conhecer o Japão, berço dessa cultura que tanto admiramos.

10. Qual sua avaliação para os eventos dedicados ao público cosplay? Há uma boa estrutura?

Muito já foi feito e muito pode ser melhorado nas Convenções. Especialmente para os cosplayers, parece haver uma dedicação e um cuidado crescente, já que possuímos vestiários, guarda-volumes, maquiadores, inteiramente à nossa disposição.

Mas sinto que falta atrações diretamente ligadas a cultura japonesa em geral, como exposições e palestras para o publico.

11. Qual sua opinião sobre a expansão do “movimento” cosplay nesta última década?

Acredito que o cosplay é um hobby saudável e muito divertido quando a pessoa está ciente daquilo que o envolve. Cosplay não é usar simplesmente uma roupa, é vestir-se da personalidade de outrem. Temos que tomar cuidado para que o “eu” não se sobreponha ao “personagem” e o descaracterize, para isso é necessário até mesmo um pequeno estudo. E isso não tem acontecido nos últimos tempos. Muita gente, afoita com o hobby, para acompanhar os amigos ou, infelizmente, para chamar atenção, acaba por não transmitir a ideia do personagem em suas poses, seu modo de agir, falar, até mesmo nos tecidos do cosplay, que tanto nos fazem “quebrar a cabeça”. Pior ainda, fazem determinado cosplay sem sequer conhecer o personagem. Isso, para mim, vai contra a ideia do cosplay de que se trata, acima de tudo, de uma homenagem aos personagens de quem gostamos e com quem nos identificamos.

12. Pensa em fazer mais alguma coisa que esteja relacionado com animes?

Nada em mente no momento.

13. Quais conselhos você daria para quem quer ser cosplayer?

Eu diria: pesquise! Não tenha medo de perguntar, cosplayers não mordem nem dão chilique quando alguém pergunta o nome de determinado tecido ou como fazer determinada peça de roupa. Pelo contrário, a maioria fica lisonjeada quando surge alguém realmente interessado em conhecer o hobby e praticá-lo. Pesquise também as melhores formas de costurar a roupa, como é o caimento do tecido no personagem para melhor retratá-lo na vida real, corra atrás de perucas, lentes, sapatos. Tudo que te faça sentir realmente como o personagem. Um cosplay bem-feito vale todo o esforço.

14. Como é ser cosplayer em Belo Horizonte?

Eu encontro algumas dificuldades, francamente. Muitas pessoas no evento não são receptivas, sequer demonstram interesse no personagem quando não conhecem (já que sempre acabo optando por personagens desconhecidos, isso me acontece bastante), fazem comentários maliciosos ou, até mesmo, mal-educados dependendo da roupa que se está usando ou do personagem. Falta ao publico lembrar que o cosplayer é uma pessoa, que também tem sentimentos, não é apenas um personagem 2D.

Já quanto à confecção do cosplay, propriamente dito, acho BH um ótimo local para quem precisa achar materiais bons, baratos e sem andar muito. Em um quarteirão, no centro, podemos achar couro, algodão, aviamentos e, até mesmo, perucas e tintas. E, de quebra, uma costureira camarada.

15. Como seus pais e amigos veem esse hobby?

Minha mãe dá o maior apoio. Acha interessante, e até diz que algumas roupas, especialmente vestidinhos e uniformes colegiais, lembram roupas que ela usou quando era pequena. Também não se importa em pagar quando estou sem dinheiro, e nem de acordar às sete da manhã, num sábado, para ir comprar cano de PVC na esquina. Sou muito grata a ela.

Meus amigos reagem bem, especialmente porque uma boa parte deles, os mais próximos, eu acabei conhecendo graças ao hobby. Mas meus amigos que não estão ligados a cultura japonesa, e mesmo meus colegas de faculdade acham bastante interessante, me perguntam como faço as roupas, elogiam e tudo mais. Acho que, quando temos ânimo para explicar direitinho que, o cosplay não é nenhum “hobby de louco”, as pessoas passam a aceitar melhor.

Lista completa dos cosplays:

  • Misa Amane (Death Note)
  • Kabuto Yakushi (Naruto)
  • Sailor Saturno e Urano (Sailor Moon)
  • Allen Walker (D.gray-man)
  • Deedlit (Record of Lodoss War)
  • Ouka (.hack//Legend of the Twilight)
  • Seth Nightlord (Trinity Blood)
  • Shinku (Rozen Maiden)
  • Kula Diamond (The King of Fighters)
  • Hinoto (X)
  • Aska (Magic Knight Rayearth)
  • Kululu (Final Fantasy V)
  • Suigintou (Rozen Maiden)
  • C.C. (Code Geass)
  • Haruhi Suzumiya (Suzumiya Haruhi no Yūutsu)
  • Ranka Lee (Macross Frontier)
  • Rachel Alucard (BlazBlue)
  • Kagami Hiiragi (Lucky Star)
  • Beatrice (Umineko no Naku Koro ni)
  • Yayoi (The Idolm@aster)
  • V-13 (BlazBlue)
  • Siesta45 (Umineko no Naku Koro ni)
  • Cure Marine (Futari wa Pretty Cure)

O cosplay não é nenhum “hobby de louco”

Cosplays da matéria:

  • Beatrice (Umineko no Naku Koro ni)
  • Yayoi (The Idolm@aster)
  • Suigintou (Rozen Maiden)
  • Shinku (Rozen Maiden)

PS: Pessoal! Quem vos posta é a Ayuki, dos blogs DoramaQueen e PopDrops. Fiz essa entrevista para uma matéria da faculdade e decidi dividir com vocês. Espero que tenham gostado!


Publicação original de 02/12/2010. 4 imagens desta publicação não sobreviveram à migração de 2013.

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