Não tenho mais o costume de ver entrevistas de bandas, ou seus integrantes; chega um momento em que se torna extremamente repetitivo, principalmente com os japoneses que, assim como os metaleiros, parecem ter comprado a mesma edição da enciclopédia dos chavões. Mesmo assim, acabei dando de cara com o Ken Lloyd (Oblivion Dust/FAKE?) vestido de Rambo, e isso me pareceu promissor — umas risadas, sei lá. Acabou não sendo divertido, mas aproveitei algo. Me explico.
Ele foi perguntado qual tipo de filme é de sua preferência, respondeu que adorava as produções da Pixar e que não gostava da David Lynch, nem diria que gosta apenas para parecer inteligente. Não discuto a preferência pelas animações, mas lembrei que esse David Lynch adaptou a história (real, diga-se de passagem) do britânico Joseph Merrick (1862–1890), uma daquelas pessoas que você se pergunta do porquê de ter nascido.
Parece pesado falar assim; mas sua história é bem dramática. Nascido com o raríssimo caso da Síndrome de Proteus conjunta à neurofibromatose, seu corpo foi totalmente deformado, tornando-o algo como uma aberração disforme. Órfão ainda jovem, foi repudiado pela madrasta, que forçou o pai a expulsá-lo de casa. Sozinho, monstruoso e com uma série de problemas de saúde, tentou se integrar ao mercado de trabalho, mas acabou empregado em um circo, sendo atração de um show de horrores. Curiosamente, lá foi bem-tratado. Começou a juntar dinheiro e foi nessa época que conheceu o médico Frederick Treves, que se interessou bastante pelo seu caso e deixou um cartão. Tempos depois, foi proibida a apresentação de aberrações no Reino Unido, deixando-o desempregado. Acabou na Bélgica, em um outro circo de horrores, mas sendo ali maltratado, humilhado e abandonado por um empresário que ainda levou suas economias. O jeito era retornar a Londres, com todos seus problemas de locomoção e respiração. Lembrou do Sr. Treves, e foi por ele ajudado, conseguindo um leito e um tratamento especial no Hospital de Londres — seu maior desejo era viver em um hospital de cegos, onde ninguém se incomodaria com sua aparência. Essa época foi mais tranquila para sua vida, visitava periodicamente o campo (nessas viagens usava carruagem coberta), colhia flores silvestres, escrevia bastante e tornou-se uma espécie de celebridade na alta sociedade.
O óbito veio aos 27 anos: numa tentativa de imitar o comportamento normal, se reclinou para dormir, o que foi suficiente, devido ao peso da cabeça, para deslocar o pescoço. Nas palavras de Treves: “Ele sempre falou para mim que desejava poder deitar-se para dormir. (...) Assim, sua morte foi por causa do desejo de dominar a própria vida — o desejo patético e sem qualquer esperança de ‘ser como as outras pessoas’.
Merrick assinava suas cartas com o seguinte poema de Issac Watts:
De fato, a minha aparência é algo medonha,
Mas censurar-me é censurar a Deus.
Pudesse eu recriar-me novamente,
Não te decepcionaria.Pudesse eu abarcar o mundo de polo a polo
Ou abraçar o oceano num amplexo,
Seria medido pela minha alma,
A base da mente do homem.
Não assisti ao filme de David Lynch (The Elephant Man, 1980), mas a biografia de Joseph Merrick é, em si, de intensidade suficiente.
Publicação original de 30/09/2010. 2 imagens desta publicação não sobreviveram à migração de 2013.