Uma maneira inovadora e inteligente de trabalhar a solidão humana, Fruits Basket se utiliza de uma lenda chinesa para criar um enredo marcante e personagens bem construídos.

Enredo básico: Desde há muito tempo, alguns membros da Família Sohma sofrem com uma maldição em que eles se transformam em animais do horóscopo chinês (cachorro, cobra, tigre, coelho, etc) quando são abraçados por alguém do sexo oposto. Tohru Honda é uma recém-órfã que iria morar com seu avô, mas, por não gostar de incomodar, decide armar uma tenda no meio de um mato e viver por lá. Nesse meio tempo ela se depara com os primos Shigure Sohma (cachorro), proprietário do local, e Yuki Sohma (rato), um colega de sua classe tratado como um príncipe no colégio. Ocorre um desmoronamento em cima da tenda de Tohru e ela é convidada á morar com os dois em troca de fazer os afazeres domésticos. Do teto da casa aparece Kyo Sohma (gato) puxando uma briga com Yuki. Claro que não demorou muito para ela acidentalmente abraçá-los, mesmo que acidentalmente, e descobrir o segredo dos Sohma. A partir daí, a história passa a se desenrolar com os membros amaldiçoados que, aos poucos, Tohru vai conhecendo.

O interessante é que cada amaldiçoado se assemelha com seu animal do zodíaco — não só fisicamente, já que a cor do cabelo é a mesma do pelo e alguns traços lembram o animal, mas também em personalidade. Kyo, por exemplo, possui o cabelo laranjado como o pelo de quando se tranforma, consegue ser ágil com alturas e possui a característica impulsiva do gato.

Não poder abraçar pessoas do sexo oposto afeta muito no cotidiano dos amaldiçoados. A escola, os amigos, nada se torna natural, já que há muito cuidado para manter o segredo da maldição. O modo como cada personagem encara esse isolamento, a dificuldade em se aceitar e o porquê que ele toma determinadas atitudes em algumas situações vai criando o gostinho de conhecer o passado do personagem e saber onde ele vai parar.

Analisando tecnicamente, o traço é positivamente bem carregado nas expressões e, aliado com os efeitos sonoros (que alias é um diferencial interessante do anime), a comédia fica completa, aparecendo nos momentos certos. A trilha sonora é delicada, traz um clima apropriado para o momento, e a letra da abertura tem tudo a ver com o conteúdo da série.

O que mais me chamou a atenção no anime é que ele consegue ser ótimo, mesmo sendo fraco. Não é difícil entender essa contradição: em relação ao mangá, a versão animada deixou muito a desejar no conteúdo, porém, mesmo com essa falta, ela consegue prender a atenção e a expectativa. Explicando melhor essas diferenças, um amaldiçoado (o cavalo) e mais outros personagens um tanto relevantes não aparecem no animê. O chefe dos Sohma, Akito Sohma, no mangá é uma mulher, e isso no anime deixa vago a história de outro personagem, já que na série escrita eles mantinham uma paixão, fato que não foi explorado no anime. O final também traz a sensação de que não acabou, apesar de os três últimos episódios trazerem uma reviravolta de modo que, ao piscar o olho, já se perde uma parte considerável. Se bem que, se considerarmos que estamos falando de um anime, então não é tão fora do comum assim um final imprevisível e sem um “felizes para sempre” de encher os olhos de lágrimas. Além disso, não segue a cronologia exata do mangá, e a história não se aprofunda tanto para a explicação de muitos detalhes sobre da maldição e o passado dos personagens.

Mas, mesmo com tanta falta de coesão entre anime e mangá, a série é marcante, a história é cativante, final emocionante e mais um monte de “ante” presentes no dicionário. Para quem gosta de shōjo, Natsuki Takaya trouxe uma ótima opção em 23 volumes no mangá e 26 episósios no anime. Fruits Basket (ou Furuba, como também carinhosamente é conhecido pelos fãs) é aquele tipo de série para pensar, rir e chorar, tudo ao mesmo tempo e com a mesma intensidade. É, acima de tudo, uma história madura.


Publicação original de 19/06/2010. 1 imagem desta publicação não sobreviveu à migração de 2013.

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