O Rio Comicon, maior encontro exclusivamente voltado para os quadrinhos do país, aconteceu nesta última semana no Rio de Janeiro. O local do evento, a antiga Estação Leopoldina de trem, era espaçoso, com uma área externa bem interessante, com os trens antigos e barraquinhas para alimentação do público.

No meio do saguão principal, trabalhos de vários artistas conhecidos (Angeli, Laerte, Otta, Kevin O’Neill, Fábio Moon, Rafael Grampá, dentre outros) e artistas independentes ao redor do mundo. Num canto, uma grande exposição com os quadros originais da grande atração do evento: Milo Manara. Manara é um dos maiores nomes dos quadrinhos eróticos do mundo, seus trabalhos são considerados obras-primas. O artista italiano já trabalhou com o cineasta Fellini, por exemplo, e é coautor e desenhista de diversas séries do ramo, como “Clic”. Nos primeiros dias, que foram mais vazios, era fácil acompanhar os labirínticos esquemas com as imagens; infelizmente, nos últimos dias, mais cheios, as filas somadas às exposições fizeram o trafego de pessoas um leve sofrimento.

Parte da exibição, imagens de Rafael Grampá:

A seguir, um resumo das atividades e acontecimentos de três dias do evento. A cobertura da Blast! foi realizada pela equipe formada por Mahoro Robusti, Dana e Tiano.

Quinta-feira

Na quinta-feira, artistas iniciantes tiveram a oportunidade de participar de oficinas e produção e conversar com profissionais do ramo. O movimento não foi muito grande durante o dia, muito provavelmente pela ausência de grandes editoras, como Marvel a DC, e isso permitiu que o público conseguisse admirar tranquilamente as exposições.

Milo Manara, o desenhista homenageado desta Comicon, teve um espaço especial para as suas obras. Uma rica coletânea pôde ser apreciada, desde storyboards feitos em parcerias com o cineasta Federico Fellini, versões eróticas de heroínas da Marvel (as X-Woman) que o artista fez a convite da editora, até ilustrações feitas especialmente para o evento.

Sexta-feira

Os debates eram a principal atração do evento, uma vez que os estandes e a exposição eram fixos. A primeira palestra do dia foi sobre quadrinhos autobiográficos, com pesos pesados dos cartuns brasileiros: Laerte, Otta e Angeli. Os autores discursaram sobre a noção de autobiografia versus visão de mundo nos quadrinhos. Angeli disse que os quadrinhos não são exatamente autobiográficos, porque “sempre há uma mentira, que é nosso espaço para criar o humor. Aí a gente sempre exagera um pouco”. Angeli também falou da morte de Rê Bordosa, sua mais conhecida e saudosa personagem: “Meus personagens não são eternos, eles morrem. Eles representam um tempo e ele passa.”

Laerte falou não só de seu trabalho autobiográfico, como do aprendizado que os seus próprios personagens davam para ele. O personagem Hugo se travestir, por exemplo, foi a base par ao pensamento do auor no processo de travestismo em que ele se encontra atualmente. Um destaque nas palestras pode ser descrito pelas palavras do cartunista Otta: “Depois do fracasso de Paraty, quero agradecer à Rio Comicon por colocar um mediador que entende de quadrinhos.”

O dia ainda contou com exibição do filme Múmia, repleto de curtas muito interessantes e as atrações internacionais Kevin O’Neill e Melinda Gebbie, em uma palestra que orientava o público sobre os rumos dos quadrinhos ingleses e europeus. Os artistas pareciam muito à vontade com o público brasileiro e responderam ás perguntas de quem acompanhava a palestra com muita animação.

Sábado

Nesse dia ficaram evidentes alguns problemas na organização do evento. O auditório da Estação Leopoldina não é grande, o que resultou na imediata lotação da palestra do Manara, com três páginas na lista de desistência. Também foram distribuídas 100 senhas para que o artista italiano desenhasse a assinasse livros de sua autoria. Quem pegou a senha enfrentou ainda uma fila de, em média, três horas de duração. Filas, inclusive, foram um problema nos dias mais cheios da Rio Comicon. Quem buscava autógrafos e desenhos personalizados dos desenhistas Laerte, Angeli, Fábio Moon, Gabriel Bá e Rafael Grampá, por exemplo, tinham que encarar ainda um fila considerável na parte externa do evento.

A palestra do Manara, grande ponto do evento, teve leves complicações. O slideshow preparado por ele teve alguns problemas técnicos, e a tradutora do Italiano se confundiu algumas vezes. Embora isso tenha irrtado alguns dos presentes, não comprometeu a qualidade do debate. Manara falou mais da sua parceria com Fellini e antes com Pratt e como essas pessoas influenciaram na sua carreira, dizendo como adimirava Hugo Pratt e como tinha honra em ser o único com quem ele realmente havia estabelecido parceria.

A Rio Comicon foi um evento mais focado para as questões culturais envolvendo os quadrinhos — e, neste quesito, foi um sucesso absoluto. Suas palestras, além de interessantes, eram bem-desenvolvidas e divertidas. Quem foi esperando algo próximo a um evento de anime, com vários títulos a preços mais baratos, talvez tenha se decepcionado. Encontrou, para venda, um estande maior da Livraria da Travessa, meio congestionado e confuso, além de estandes dos autores nacionais mais conhecidos ou independentes. A Panini estava no evento, mas não disponibilizava as versões encadernadas para compra.

Mesmo com as filas quilométricas meio frustrantes, quem é fã mesmo pôde conversar e se aproximar desses artisas que não vemos por aí em comerciais ou dando entrevistas em qualquer programa de televisão. A nossa Mahoro Robusti, por exemplo, é fã alucinada do Milo Manara a ponto de fazer um desenho agradecendo a presença dele no evento. Depois de horas em pé na fila, porém, parece que ela conseguiu um prêmio merecido:

O evento certamente elevou o Rio de Janeiro ao patamar de capital nacional dos quadrinhos, como pretendia. Ainda que carecendo de alguns detalhes de organização e atrações, foi um evento completo naquilo que se pretendia mostrar. Ao que tudo indica, ano que vem tem mais. Os fãs e a Blast! ficam na expectativa.


Publicação original de 17/11/2010. 6 imagens desta publicação não sobreviveram à migração de 2013.

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