“Humanos são seres repugnantes, se autodestroem aos poucos. O final dos tempos chegará um dia, e este mundo terá seu final. Não quero que este dia demore, desejo ver os humanos matando-se lentamente, ver o mundo que conheço se acabando, assistir de camarote. Será que demorará muito? Minha idade me impedirá de ver, então eu decidi dar um empurrãozinho para que acabe logo.” Carta escrita em 1989 em uma cela qualquer, por Edgar Rossô
Prólogo
― O que esse rapaz está fazendo aqui ainda? ―, pensa o motorista do ônibus, olhando pelo retrovisor enquanto faz a manobra para voltar à garagem da empresa. Ele se aborrece por ter que resolver um problema antes do seu turno acabar. O que seria hoje? Um drogado? Um bêbado ladrãozinho pé de chinelo?
O cobrador se levanta e vai até o motorista.
― Hoje é a sua vez; semana passada eu lidei com aquela mendiga que queria morar no ônibus.
O motorista desliga o motor e esfrega o rosto com as mãos. Levanta-se e vai em direção ao rapaz que está sentado no último banco encolhido ao lado da janela, segurando uma sacola de supermercado. Ele está com a aparência cansada, olhando atentamente para o céu cheio de nuvens negras. Ao perceber a aproximação do motorista, ele diz:
― Escolha bem suas palavras, pois serão as últimas...
O motorista se sente ameaçado e para a alguns passos do rapaz. Após engolir seco, exclama:
― Vai pra sua casa, que eu quero ir pra minha!
Sorrindo, o rapaz diz:
― Hoje ninguém vai pra casa.
Continuação toda sexta-feira.
Publicação original de 14/10/2010. 6 imagens desta publicação não sobreviveram à migração de 2013.