Martha Lorena Alvarado, vice-chanceler e porta-voz de Micheletti: “o bipartidarismo segue uma realidade em Honduras e quem quiser o poder terá de buscá-lo por algum dos dois partidos”. O que o povo acha? (Foto: Esteban Felix/AP)

Elio Gaspari, renomado escritor e jornalista, possui 4 livros onde ele divide a ditadura militar em 4 períodos. A ditadura envergonhada, a ditadura escancarada, a ditadura derrotada e a ditadura encurralada, cada período é um volume do livro. O recente golpe em Honduras também pode ser dividido em quatro fases: o golpe escancarado, o golpe envergonhado, o golpe legitimado e as projeções futuras. Mas também há outras coisas em comum, além de aprisionamentos arbitrários de opositores aos golpes e eleições diretas que não representam a democracia. Honduras, 40 anos depois, parece repetir uma história já conhecida pelos latino-americanos.

Na primeira fase, o golpe em Honduras assume-se como tal. O presidente constitucionalmente eleito Manuel Zelaya é retirado de sua casa de pijamas e é expulso do país. Respaldado pelo Congresso, pela Justiça e pelo Exército hondurenhos, Roberto Micheletti sobe à presidência. O golpista resiste às pressões internacionais e se mantém firme no cargo, reprimindo manifestações da população, prendendo simpatizantes de Zelaya e desaperecendo com lideranças sindicais contrárias ao golpe.

No segundo momento, Zelaya se abriga na embaixada brasileira e depois de observar as tímidas sanções econômicas feitas pelos EUA (que, frente a “ameaças” na Venezuela, Iraque e Afeganistão, foram capazes de tomar medidas bem mais enérgicas, só pra usar exemplos recentes), Micheletti recua e admite a possibilidade da recondução do presidente constitucionalmente eleito. A maior parte dos Estados vizinhos e das agências internacionais sugere a volta de Zelaya.

O golpe estava golpeado, tudo parecia se encaminhar na direção de um consenso. Micheletti, porém, posterga o acordo até quando pode, afirmando que precisava consultar a Corte de Justiça, o Ministério Público, e a Procuradoria-Geral de República. Surge, então, o terceiro momento: uma eleição é realizada sob a égide da espada golpista e é legitimada pela maior parte da comunidade internacional, com exceção de alguns hermanos latino-americanos. Com abstenção de cerca de 50% (pesquisa financiada pelos EUA) e três visitas de coronéis ao Tribunal Superior Eleitoral hondurenho antes da divulgação do resultado, a vitória é dada a Porfirio Lobo, do Partido Nacional (conservador). O Congresso, por sua vez, o mesmo que apoiou o golpe de julho, votou pela rejeição da volta de Zelaya ao poder.

A ditadura militar brasileira ainda está longe de acertar as contas com seu passado. Além disso, a eleição em Honduras, país onde vigora o bipartidarismo (qualquer semelhança entre MDB e ARENA não é mera coincidência), tenta disfarçar a polarização entre a direita liberal-conservadora, representada pelos dois partidos, e os nacionalistas, progressistas e a esquerda, representada nas manifestações populares e nos movimentos sociais. Para pacificar o País, Lobo terá que ser um pouco como Zelaya e assumir causas populistas. Para isso, já elogiou, inclusive, o Bolsa-Família de Lula. Já o movimento para uma nova Constituição acontecerá com ou sem o presidente deposto, já que a atual, muito rígida, bloqueia qualquer reforma mais profunda. O golpe cívico-militar foi só a ponta do iceberg.


Publicação original de 12/12/2009. 1 imagem desta publicação não sobreviveu à migração de 2013.

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