Recentemente, tive umas duas discussões na Internet acerca do assunto “música × dinheiro”. Mas, vejam bem, foram discussões saudáveis. Saudáveis, porém, não-produtivas, como a vasta maioria das discussões na Internet. Não-produtivas porque duas pessoas com opiniões bem diferentes começam a debater e, quando chegam no fim, as opiniões e conhecimentos continuam praticamente iguais. A discussão praticamente só tomou tempo. Bem, é assim que esses “debates” da Internet normalmente são. Não sei se algo mudou pras pessoas com as quais conversei sobre o assunto “música × dinheiro”, mas pra mim, o que mudou é que resolvi escrever isto.

Talvez essas pessoas que conversaram comigo sobre esse tema tenham imaginado, pelas coisas que eu disse pra defender meu ponto de vista, que eu coloco o dinheiro acima de tudo, que o dinheiro é a coisa mais importante. Não, não é isso que eu penso. O dinheiro é muito importante porque é com ele que você vai conseguir coisas muito boas — como qualidade de vida e conforto — pra você e as pessoas que você ama, como familiares, por exemplo. E viver bem junto com quem se gosta é o mais importante, certo?

Certa vez debati brevemente com algumas pessoas sobre a possibilidade de uma grande banda japonesa vir ao Brasil. Eu argumentei que isso não aconteceria, pois não havia bom custo-benefício e, portanto, seria um projeto inviável. Grandes bandas como X JAPAN, L’Arc~en~Ciel, GLAY, B’z e outras operam com grandes campanhas, eventos, etc. Tudo envolve grandes quantidades de dinheiro, que, por sua vez, não são gastos; são investimentos — ou seja, visam um retorno de uma quantia maior de dinheiro. E esses artistas, como todo mundo, procuram manter esse padrão o máximo possível. No mundo da música, todos têm um ponto de topo de fama e sucesso e depois, com o passar dos anos, o padrão cai. Mas, lógico, todo mundo se esforça pra manter o que for possível. Isto é natural do ser humano. Todo mundo quer manter e melhorar sua vida profissional, nunca ir pra trás.

Bandas japonesas grandes — não apenas as que citei — mal investem nos EUA e na Europa. Por que eles viriam ao Brasil, onde o público é ainda menor? Simplesmente, não dá. Não tem quem pague nem pra banda sair no zero — sem lucro, mas também sem ficar no vermelho. O público não é suficiente e mal compra CDs e merchan. E nenhuma empresa vai querer bancar algo tão caro sendo que sua marca seria divulgada entre poucas pessoas.

Os argumentos contrários podem variar desde que a banda o faria para investir no mercado do país até o inocente “eles não fariam isso por dinheiro”. Sobre investir, obviamente, existe investimento e investimento. No mundo dos músicos em geral, costumam dizer que "instrumento é investimento". É muito possível que o instrumento seja um bom investimento cultural e, de maneira simbólica, espiritual. Financeiramente, é um péssimo investimento. Instrumentos só desvalorizam depois de comprados, então não dá pra repassar. Ganhar dinheiro tocando... é uma história muito complicada, todos sabem. Assim, existem investimentos bons e investimentos furados.

Um caso que sempre me vem à cabeça quando se fala em investimento de insucesso na área do rock japonês é o do L’Arc~en~Ciel e toda a sua campanha realizada nos EUA entre 2003 e 2005. Nesse período, a banda lançou oficialmente três de seus álbuns e, em 2004, realizou um show no país. Um dos grupos japoneses de rock mais populares no Ocidente, o tal show ocorreu em um famoso evento estadunidense de anime/cultura popular japonesa e atraiu uma multidão de 12.000 espectadores. Muitos, inclusive eu mesmo, imaginaram, ao se deparar com esses dados, que o L’Arc era um grande sucesso nos EUA. Mas se investir no país fosse assim tão bom pra banda, porque eles nunca mais voltaram pra tocar lá? Por que nunca mais lançaram nada lá depois do terceiro álbum, em 2005? Se tem tanta gente interessada neles por lá, como é que eles não tiveram um bom retorno financeiro? Sempre achei isso estranho. Mas algo que me ajudou a pensar foi um trecho de um texto de Nathan Reaven, presidente e fundador do HearJapan, site estadunidense que vende música japonesa em formato mp3:

Meu principal trabalho é procurar diferentes artistas e selos e tentar levá-los pro site. (...) Eu também converso regularmente com promoters de shows e artistas de visual kei fora do Japão e selos de visual kei fora do Japão. (...) Todo mundo me diz exatamente a mesma coisa: “Sobre a banda com a qual trabalhamos, tentamos levá-los pro Ocidente, mas ninguém pagou pela música... perdemos muito dinheiro.” Já ouvi muito de líderes de bandas: “O número dos nossos ouvintes continuou aumentando e aumentando. Nossas vendas, não. Quando conferia minha página no MySpace, ela estava cheia de mensagens dizendo quão ótimo nosso lançamento era e eu sempre pensava ‘então, por que você não comprou?’ ”.

O texto todo é muito interessante e esclarecedor sobre o mercado (ótima dica pra quem lê inglês). Por exemplo, se você acha que uma banda que está sempre desenvolvendo novas estratégias pra ganhar dinheiro com seus fãs ou que não quer investir/tocar em um país que não lhe dê bom retorno é mesquinha, aqui vai um dado interessante: o texto foca o caso da nova banda Xodiack, que debutou lançando seu primeiro single exclusivamente no HearJapan. A produção total do single custou cerca de 10.000 dólares e o single do grupo vendeu muito, muito pouco, a ponto de não ser preciso muito mais do que duas mãos pra contar quantos. Estamos falando de músicos que acabaram de se aventurar na vida profissional e são ainda completamente independentes. São dez mil dólares dos bolsos de cinco jovens. Você tem R$ 4.400,00 pra investir em algo que vai te dar muito trabalho e nenhum retorno? Quantos singles ou álbuns a banda teria que lançar que construir uma base de fãs numerosa e sólida/fiel o suficiente pra manter sua carreira profissional no azul? Quanto investimento isso iria requerer? O mercado musical é muito complicado.

Estes foram dados mais precisos, repetindo, sobre um grupo que acabou de começar e ainda é completamente independente. Obviamente, quanto maior a banda, maior o investimento. Imagine que uma banda venha ao Brasil — um quinteto — e que venha junto o mínimo de equipe de apoio possível. Um ou dois, sei lá. Vamos trabalhar o exemplo com um cenário otimista. Seis pessoas que vão gerar custo de transporte, hospedagem e alimentação, mais o custo de transporte dos equipamentos do grupo, mais o custo do evento e todas as suas despesas normais. Suponha que o evento seja um grande sucesso e 2.000 vão ao show, o que é um número ótimo pra uma apresentação de um artista musical japonês no Brasil, atualmente. Suponha, com um otimismo absurdo, que as pessoas paguem R$ 60,00 pelo ingresso individual. Aliás, um quarto desse montante comprou o ingresso VIP de R$ 100,00. O lucro bruto do evento é de R$ 140.000,00, que deve pagar todas as despesas do evento (aluguel do lugar, pessoas que trabalharam, divulgação, etc), mais transporte, hospedagem e alimentação da banda e sua equipe. Custos de transporte da banda e equipamentos podem ser divididos com outros países das Américas que vão receber a banda naquela turnê. Mas mesmo assim, imagine que, num cenário esdruxulamente otimista, os R$ 140.000,00 sejam o montante destinado a pagar o cachê da banda. Afinal, eles investiram muito nessa apresentação. Os músicos e várias outras pessoas passaram vários dias ensaiando e se preparando pra isso. Tempo, energia e dinheiro foram despendidos nesse show. Se os R$ 140.000,00 fossem usados pra pagar o cachê da banda, eles teriam ganhado uma quantia bruta de mais ou menos US$ 60.000,00. Você acha que esse é o cachê, por exemplo, do DIR EN GREY? E quanto você acha que custa o do L’Arc~en~Ciel? Isso não paga nem alguns artistas nacionais.

O montante de tempo, energia e dinheiro despendidos num único show poderiam ser usados pra fazer, por exemplo, um show no Japão, onde, logicamente, há muito mais fãs. Os custos seriam menores, o público seria maior: mais ingressos e merchan vendidos, maior lucro. O exemplo do parágrafo anterior é bem utópico, mas 2.000 pessoas num show no Japão dariam um lucro bem diferente de 2.000 pessoas num show no Brasil, só pelo preço do ingresso e pela venda de merchan. Agora, junte a esse cenário a questão do download ilegal comentada por Nathan Reaven em seu texto no HearJapan e teremos que até um show pra 2.000 pessoas nos EUA é muito diferente de um show pra 2.000 pessoas no Japão, da mesma banda japonesa.

E o L’Arc nunca mais tocou nos EUA depois de uma única apresentação em 2004. Seu último álbum, KISS, saiu no ano passado e, ao contrário dos três anteriores, não ganhou versão ianque. Por sinal, algo muito parecido ocorreu com a carreira solo do vocalista HYDE. Imagino por quê. Entre aquelas 12.000 pessoas daquele show, estavam vários fãs que não compram os produtos originais (não todos, claro) e um monte de gente que sequer era fã dos caras e, na verdade, gostava é de uma ou outra música deles que é abertura ou encerramento de algum desenho animado — o tipo de gente que não vai se sentir inspirada a comprar um álbum importado por um preço duas ou três vezes maior do que o de um álbum nacional. Não foi nem o primeiro ocorrido desse tipo de caso. B’z tocou no Tio Sam em 2002 e de novo em 2003. Nunca mais voltou. Na certa, investimento que não deu certo. Todas essas coisas também me fazem pensar porque não parece haver sequer perspectiva de ocorrer uma segunda edição do Jrock Revolution, o festival que levou nove bandas visuais pros EUA em 2007.

Há ainda o “argumento” de que o artista poderia fazer um show do outro lado do mundo sem ser por dinheiro. Pessoalmente, acho que passar dias se preparando e então cruzar o globo pra fazer um ou alguns shows — ter todo esse gasto de tempo, energia e dinheiro — só por diversão é coisa de filhinho-de-papai que não tem mais o que fazer e não sabe onde enfiar grana (sem querer ofender). E eu quero crer que ninguém acha que uma banda faria um show desses ficando no vermelho (ou mesmo no zero) só pra realizar o sonho dos fãs. Ninguém vai tirar dinheiro da boca dos filhos por causa de um bando de adolescentes fantasiados que não vão mais ligar pra eles em alguns anos — ou mesmo que ligassem. E isso não é mesquinharia de forma alguma, mesmo que não afetasse realmente a vida financeira do músico. Como eu disse antes, dinheiro é o caminho pra qualidade de vida. E todo pai e mãe pensam da seguinte maneira: mesmo que seja suficiente o filho estudar em uma boa escola, se eles puderem pagar por uma excelente escola, é pra lá que o filho vai. Pergunte pros seus. Mesmo que a mensalidade custe alguns milhares de dólares, se der pra pagar, vai rolar. E esse padrão de vida se estende por todos os aspectos do ser humano. Ele quer pra ele e sua família excelentes casa, carro, médicos, etc. E por isso ele vai trabalhar esperando ganhar a maior quantidade de dinheiro possível. Lógico, isso não significa que alguém vá fazer algo ilegal ou desonesto — até mesmo antiético — de qualquer forma só pra lucrar. Mas ninguém vai querer tomar prejuízo só pra ser bonzinho. Músicos inclusos. Uma gravadora ou um selo sérios nem deixariam alguém fazer isso.

Não pensem que estou criticando ou desejando o pior para o mercado brasileiro de música japonesa. Pelo contrário, eu espero que venham cada vez mais bandas pra cá (eu quero ir nos shows!). E se chegarem a lançar discos por aqui, eu vou querer comprar, mesmo que eu não curta tanto a banda em questão e compre só pra ajudar a cena. Lembrando, todo esse blá-blá-blá parte do princípio da ideia de algumas pessoas de que existe a possibilidade de bandas grandes, ou mesmo algumas médias, virem. E é mais um desabafo pessoal.

E pra quem cheguei a discutir sobre o assunto ou coisa parecida, não ache que seja um recado pessoal. Não é.

-EDITADO-

Só um adendo a minha argumentação. Sem querer ser pessimista, nem chato, mas só destacando um fato:

“A verdade é que a baixa venda de ingressos dos últimos shows prejudica demais as empresas envolvidas (e não estamos falando somente por nós) e dificulta futuras negociações; não somente pelo prejuízo financeiro, mas também pela imagem que o próprio artista e seus agentes acabam tendo do país e de seu público. Afinal, que artista gostaria de voltar para um país tão distante, onde o seu show é vazio?” - Yamato

http://radioblast.com.br/index.php#story/2009/02/yamato-music-pede-maior...


Publicação original de 10/02/2009. 2 imagens desta publicação não sobreviveram à migração de 2013.

Compartilhar
Comentários
0 comentários