O governador do Estado do Rio de Janeiro Sérgio Cabral anunciou mais uma medida polêmica: a construção de muros de cimento de 3 metros em volta de várias favelas cariocas. O empreendimento custará 40 milhões de reais e já está sendo aplicado em onze comunidades localizadas na zona sul. A justificativa é conter a expansão desenfreada das moradias populares sobre a mata atlântica mas, na prática, Cabral pretende agradar a uma parcela da população que não gosta de pobre.
Sérgio Cabral já afirmou que a favela é uma fábrica de produzir marginal e a opinião pública tem feito coro. As políticas de execução sumária de favelados pela PM, prática recorrente, recebe aplausos dos leitores d’O Globo. O Rio de Janeiro, por sua vez, possui o maior índice de violência e criminalidade do Brasil. Para resolver o problema, ao invés de atacar as causas — baixos salários, alto nível de desemprego, êxodo rural, etc. — o governador prefere empurrar com a barriga.
A justificativa faz menos sentido ainda. Segundo dados do Portal SOS Mata Atlântica, desde 1500, 93% da formação original da mata já foi devastada. Se recorrermos a história, veremos que os maiores causadores do desmatamento não foram os pobres. Além disso, a educação cidadã e ambiental não é prioridade nas escolas estaduais, onde um professor ganha menos de 600 reais por mês. Como o governador do Rio pretende resolver um problema sem atacar as causas e fazer a devida prevenção, que só a educação pode fazer?
Muros nunca foram eficazes na hora de separar grupos. O de Berlim, que separava capitalistas de comunistas, foi derrubado. O de Wall Street, que separava os operadores do mercado financeiro dos demais cidadãos, está sendo derrubado. O do México, que tenta diminuir os fluxos de migração para os Estados Unidos, é absolutamente ineficaz — a não ser na hora de executar meia dúzia de latinos. Agora temos mais um muro, mais dinheiro gasto e a continuação da política de tapar o sol com a peneira.
Publicação original de 23/04/2009.