Mais um assunto que eu deveria ter abordado há algum tempo, mas que acabou sendo atrasado por coisas que me pareceram ser mais urgentes/interessantes/eu-estava-afim-de-escrever-sobre-aquilo-naquela-hora.

Já há algum tempinho, o JaME publicou uma matéria — parte de um especial para seu quinto aniversário — com depoimentos de vários parceiros japoneses que o portal tem. São profissionais de empresas do ramo midiático envolvidas com j-rock. Um dos depoimentos em particular me chamou mais atenção, o de Kuniaki “Pokkun” Suzuki, editor-chefe da SHOXX, uma das principais publicações impressas sobre visual kei. Seguem trechos de seus depoimentos e comentários meus:

Eu cresci ouvindo rock americano e europeu. Não só eu, mas fãs de música ao meu redor também preferiam ouvir mais rock ocidental a japonês. Naquele tempo, aproximadamente no fim dos anos 70 e começo da década de 80, boa parte da cena de rock japonês era uma cópia de música americana e britânica, então, para mim, a música japonesa era somente uma cópia barata.

É só um datalhe, mas o termo “música” obviamente não foi bem usado aqui. Primeiro, Suzuki afirma que só o rock japonês é que era uma cópia do ocidental. Não quer dizer que toda a música japonesa (que, claro, vai bem além do rock), fosse também uma cópia.

O rock foi criado na América do Norte, e então se misturou com as culturas originais de vários países, como Inglaterra, Jamaica, França, etc., e depois se transformando em novos estilos e ganhando aceitação global. Entretanto, o rock japonês tem se esforçado para não se adaptar ou se misturar com a cultura japonesa, continuando a importar o rock do ocidente. O resultado foi que não existia nenhuma nova descoberta no rock japonês, já que tudo não passava de uma imitação. Não só no Japão, mas também fora dele, o rock japonês não era aceito por causa disso durante um longo tempo. Eu acho que você, que está lendo este texto, provavelmente acha difícil citar alguma banda de rock japonesa que veio antes do X JAPAN.

Não.

Todavia, o que mudou essa situação foi o “visual kei”, e o X JAPAN foi uma parte disso.

Aí está o grande problema. Sabe, é natural que qualquer pessoa puxe a brasa pro seu lado (é essa a expressão mesmo, Chapolin?) e eu imagino que seja o caso aqui. Exaltar uma banda visual — uma das primeiras, senão a primeira — na questão da originalidade do rock japonês uma vez que sua revista fala exclusivamente sobre visual kei. Duvido que o editor da SHOXX fosse ignorante ao ponto de afirmar isso por puro desconhecimento.

Depois da última citação acima, Suzuki dá a entender que X JAPAN teria sido o primeiro grupo japonês, dentre qualquer banda ou artista, a fazer rock genuinamente japonês, algo com uma sonoridade que não fosse apenas uma cópia da ocidental, negligenciando, por exemplo, dois importantes nomes da música japonesa: BOØWY e THE ALFEE.

Acompanhe comigo... X JAPAN teria se formado em 1982. A data pode não ser das mais precisas, mas creio que no começo, antes mesmo de se chamar X, eles usaram o nome NOISE e tocavam basicamente covers (de bandas ocidentais, aliás). Suas composições próprias, no começo, não tinham um estilo tão original assim, como pode ser conferido pelos exemplos (links para o YouTube) “Stop Bloody Rain”, “Break The Darkness” e “Time Trip Loving”.


Sim, de novo essa foto...

Já o BOØWY teria se formado em 1979 e já estava mandando bala enquanto o X ainda estava engatinhando. Lançou seu primeiro álbum, MORAL, em 1982. BOØWY desenvolveu em seu trabalho um estilo próprio, moldando o rock’n’roll à sua própria identidade. Bons exemplos para conferir a musicalidade original, inovadora e influente da banda são “NO N.Y” (1982), “IMAGE DOWN” (1982), “OH! MY JULLY Part I” (1983), o hino “Dreamin’” (1985), “CLOUDY HEART” (1983/1985) e “B · BLUE” (1986), entre vários outros.


O ETeimoso

THE ALFEE, que começou tocando coisas bem calmas, misturando sonoridades japonesas e ocidentais, adaptou sua fórmula ao rock na década de 1980, como podemos constatar, por exemplo, nas bem japonesas “Banka” (1982), “MARY ANN” (1983), “Akatsuki no Paradise Road” (1983), “Hoshizora no Distance” (1984), “STARSHIP -Hikari o Motomete-” (1984) e “Cinderella wa Nemurenai” (1985). Creio que em músicas como estas pode-se reconhecer também bastante da musicalidade japonesa. Talvez o THE ALFEE tenha até sido o pioneiro dessa sonoridade em particular?

O rock foi originalmente uma total mistura entre músicas que contradiziam as tradições e pureza, repetindo sua inesperada metamorfose e continuando a surpreender-nos com estímulo e ideias livres. O visual kei dá continuidade a isso, sendo o primeiro estilo de rock que os japoneses inventaram.

Kuniaki Suzuki (SHOXX)

Foi mal aí, Suzuki. Entendo se você quiser puxar brasa pra sua revista, mas isso aí não colou pra mim não. Além de que, visual kei não é apenas um estilo, mas vários. O estilo X JAPAN é bem diferente do estilo do LUNA SEA, que é bem diferente do estilo do MALICE MIZER e assim por diante em toda aquela velha e manjada discussão.

Me despeço com vídeo do THE ALFEE — veio, claro —, “Generation Dynamite”, de 1983. Ache você que isso seja uma sonoridade original japonesa ou não, o que realmente vem ao caso aqui é que o clipe é muito legal de tão tosco:

“SUTANDAPPU, WEIKAPPU!”


Publicação original de 21/05/2009. 4 imagens desta publicação não sobreviveram à migração de 2013.

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