Olá. Para quem ainda não me conhece, meu nome nick é AMF, e sou o cara responsável por manter boa parte do site da Blast! no ar. Cara tal que, como muitos, é fã de algumas bandas e/ou estilos até então “undergrounds” no Brasil, e está vivenciando um momento mágico (e decisivo): o provável boom de sua popularidade por aqui graças à Grande Mídia.

No entanto, isso parece ser uma heresia para uma maioria esclarecida, dizendo sempre que a reputação das bandas/estilos que gostam vai ser “irreversivel e inevitavelmente manchada no Brasil”. E o pior: não é de hoje.

Deve ser um sofrimento do caralho, não? O seu tão-amado estilo musical será conhecido por outros, o que significa mais chances de seus artistas preferidos virem fazer shows para cá. De fato, uma heresia.

Mas não se preocupem! Eu, como pessoa que se preocupa com o bem-estar dos visitantes da Blast!, decidi fazer um miniguia para adiantar o inevitável e poupá-los de tanto sofrimento, que aliás já é aplicado pela já mencionada maioria esclarecida dos fãs.

1. Esperneie até a morte

A estratégia mais simples, e a mais comumente executada. Como dito antes, considere uma heresia toda e qualquer forma de publicidade do seu estilo. Diga que a Grande Mídia vai associar a música que você tanto ama a comportamentos antiéticos, politicamente incorretos e tudo mais.

Fazendo isso tudo, as chances de você e seu estilo musical serem comparados a outros estilos já destruídos e com fãs similares já aumentarão drasticamente, mas você quer apagar esse sofrimento da sua mente, certo? Então não pare por aí.

2. Cace os fãs novatos como se fossem bruxas

A pior coisa para seu estilo é definitivamente ele ser invadido por fãs novatos, vulgo “posers”. Claro, porque, se bobear, alguns deles podem vir a saber tanto quanto você — ou até mais — sobre as músicas e bandas que você gosta. Logo, os novatos são uma ameaça imediata, pois é uma questão de tempo até que você deixe de ser “cult” e “underground”.

O que fazer? Procurar outro estilo? Nananinanão. Por um momento, você precisa honrar o hino do país que você ama odiar: “Verás que um filho teu não foge à luta”. Faça os novatos pedirem para sair no melhor estilo Capitão Nascimento, diga que eles são, sem exceção, seguidores de modinhas e até mesmo o “câncer que vai matar seu estilo”, e a cereja do bolo: diga que eles não podem gostar, quanto mais se interessar, pelas músicas que você tem interesse (um bom e infalível argumento é dizer: “ah, vá se foder, você baixa meia-dúzia de músicas e já diz que é fã?”). E pronto, os pontos de reputação do seu estilo vão diminuir, mas pelo menos você está livre de ameaças!

3. Coloque-se numa bolha

Essa estratégia é usada principalmente por filhas fotologgers de escritores famosos de novela, além de pseudocomunistas (também fotologgers) agora VJs de programas sobre música. No entanto, aplica-se perfeitamente a este guia.

Quando alguém fizer alguma crítica sobre os seus artistas/músicas preferidos, sempre, sempre, sempre diga que o crítico é irracional, e mande-o “se foder”, principalmente se não for alguém da cena (veja item 2). Não importa o tom da crítica, elas são irrelevantes, pois se você gosta do que gosta (ou faz), é porque não há absolutamente nada de errado e dane-se o mundo que você não se chama Raimundo.

4. Ataque vorazmente quem disser um “a” errado sobre o seu estilo

Se alguém se propuser a escrever um artigo sobre o seu estilo, assuma sempre que essa pessoa é tão sabida quanto você no assunto (o que, dependendo da sua interpretação, contraria um pouco o item 2, logo tendo um efeito ainda melhor). Leia o artigo com atenção, e caso encontre um erro, solte as feras. Pode ser um erro de digitação, um erro de concordância, não importa. Se for uma pessoa da cena, melhor, aí dá pra dizer que é um “traidor do movimento”.

Caso não haja nada aparentemente errado com o texto, procure brechas, especialmente se o autor não for da cena. Procure pontuação invisível, afinal as pessoas fora da cena são analfabetas e não sabem onde colocar vírgulas, dois-pontos e acentos onde você quer que estejam, porque senão não tem como atacá-los.

5. Diminua seu QI

O último prego no caixão é, se é que ainda não o fez, garantir a semenhança entre você e um pé de salsinha frente a um EEG (™ Cardoso). Invente que há uma conspiração liderada pela Grande Mídia querendo destruir a cultura mundial, e diga que são nazistas. Excomungue pessoas da cena que porventura discordarem deste guia. Interprete informações erroneamente de propósito. ESCREVA EM CAPS LOCK. Etc, etc, etc.

Não há estilo musical que resista.

Conclusão

É realmente uma pena ver uma cena que eu antes achava esclarecida ser composta por pessoas hipócritas, incapazes de enxergar um palmo de distância do nariz. São o mesmo tipo de gente que odeiam tanto. Basta um estilo ganhar popularidade entre as massas que a máscara dos fãs veteranos cai, e é exatamente essa atitude barulhenta contra isso que destrói reputações de estilos, bandas e o que mais for. E os fãs novatos, coitados, vão perder a chance de gostar de algo novo de novo, e vão continuar relegados às mesmas coisas de sempre.

Mas não vai ser por isso que vou parar de ouvir o que gosto.


Publicação original de 08/03/2009.

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