A demarcação das terras indígenas Raposa Serra do Sol é um debate quente no momento. De um lado, temos alguns ministros do Supremo Tribunal Federal, como Carlos Britto, que acabou de votar pela manutenção da demarcação contínua das terras indígenas, “não em formato de queijo suíço”, setores da Igreja Católica (Conselho Indigenista Missionário), ambientalistas, defensores dos Direitos Humanos e — finalmente — indígenas. De outro lado, o governo estadual de Roraima, setores conservadores da Igreja, ruralistas, arrozeiros, militares e empresários.

Antes de mais nada, é necessário observar que a organização social dos indígenas é uma organização que acompanha o ciclo da natureza. Sobrevivem da caça, da coleta e da pesca e de alguma pequena agricultura, destruindo menos a natureza do que nós, “civilizados”. Como acompanham o ritmo da natureza, precisam de ambientes biodiversos que garantam segurança alimentar em todas as estações do ano e também de um território extenso para realizar suas atividades.

A cultura indígena está inscrita nas florestas, nos rios e nas montanhas. Suas tradições, seus deuses e seus mitos são parte da natureza e a troca de saberes (sobre plantas que devem ser usadas para alimento e plantas venenosas, por exemplo) é baseada na natureza. A agricultura indígena é cultura, em oposição ao agronegócio, que é negócio.

Diminuir o território dos índios é um ataque totalitarista a uma parte da cultura e da história do Brasil. O país que diz tanto ser uma terra harmônica, onde convivem as diferenças, um país de todos, se mostrará fascista se decidir reduzir as terras indígenas em nome de agricultores e empresários insaciáveis por lucro.

Obs.: O texto de hoje é apenas uma introdução ao tema, pois ele é amplo demais para ser tratado nas curtas linhas do blog. Para os que se interessam, vale a pena ler artigos do antropólogo Mércio Gomes Pereira, ir até o site da FUNAI, e, para não dizer que o blog não é democrático, acompanhar os depoimentos do ministro Mangabeira-Únger. Para leitura básica, ver:

Eu não aceito ser co-autor de genocídio (e outros textos dedicados ao tema do mesmo blog)
CartaCapital Nº 511


Publicação original de 03/09/2008.

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