A idéia de progresso traz embutida consiga a idéia de libertação. Entretanto, o que percebemos é que a modernidade tem restringido cada vez mais nossas relações sociais e não pára de criar barreiras. Além disso, o público que pode se beneficiar dela é cada vez menor. Vivemos hoje um momento de crise da modernidade.
Cada vez menos nos relacionamos fisicamente com as pessoas. Ninguém precisa mais visitar ninguém ou conhecer seu vizinho depois do telefone, menos ainda depois da internet. Nossa vida ficou mais fácil, é verdade, mas não saímos mais de casa para ir ao mercado, e sim, fazemos uma encomenda pela web. Evitamos cada vez mais o contato físico.
A base para uma nova utopia é construir espaços sem barreiras. O mundo, a cada dia que passa, tem mais grades, cercas, muros e barreiras. A grade do condomínio, o muro que separa o México dos Estados Unidos e a barreira imaginária asfalto–favela são exemplos claros. Algumas dessas barreiras inclusive transmitem-nos receios de atravessá-las e isso é uma forma de violência.
Essa violência subjetiva também acompanha a modernidade. O shopping Cidade Jardim em Pinheiros, zona nobre de São Paulo, não possui entrada de pedestres nem praça de alimentação. Os únicos que podem entrar no shopping são os portadores de automóveis e, se bater fome, as lojas servem internamente sanduíches e cafezinho — mas apenas para os consumidores. Uma mostra clara de violência contra os que não possuem poder aquisitivo.
Essa não é uma modernidade ilusória, ela é real. É o tipo de coisa que deveria fazer a gente pensar se esse é o tipo de desenvolvimento que queremos. Entretanto, o progresso também traz benefícios. Mas precisamos pesar na balança e buscar alternativas de globalização, que sejam menos excludentes e mais justas. Não adianta deixar o bolo crescer e não reparti-lo.
Publicação original de 21/10/2008.