Introspecção, humildade e mudanças com Barakamon

O mundo está sempre em constante mudança. A sociedade em desenvolvimento. Para saber se o caminho que escolhemos nos levará para frente ou nos jogará no fundo do poço é preciso arriscar, e para que a primeira alternativa seja atingida é preciso se distanciar das situações e aprender a ser humilde para se autoavaliar. Essa é a premissa de Barakamon, e com uma boa quantidade de comédia e reflexões, este anime de apenas 12 episódios vai te cativar.

17/07/2020 Última edição em 17/07/2020 às 20:18:22

O que é?

Ilustrada por Satsuki Yoshino e serializado em 2009 pela Gangan Online, da Square Enix, Barakamon é um anime do gênero Slice of Life com fortes elementos de comédia, mas que também possui uma boa carga dramática, tendo sua adaptação para anime feita em 2014. A história ainda conta com uma spin-off sobre a juventude do protagonista e curtas em estilo chibi de aproximadamente cinco minutos de duração chamados Mijikamon, potencializando o fator humorístico, ponto forte da série. Mas hoje vamos nos concentrar somente na série principal.

O enredo

Na trama, acompanhamos a história de Seishu Handa, um calígrafo profissional, antissocial e metódico, cuja infância altamente regrada por uma família tradicional o transformou em um adulto insensível e obcecado pelo seu trabalho. Handa construiu uma carreira notória como calígrafo se tornando referência no ramo e inspiração para os jovens, até o momento em que a visita de um curador de arte o visita em uma exposição, distribuindo insultos ao seu trabalho, por considera-lo medíocre. Como resposta aos insultos, Handa agride fisicamente o curador, atitude que o afastará tanto de sua carreira quanto levará seu pai a praticamente exilá-lo em uma cidade interiorana nas Ilhas Goto, Kyushu.

A proposta é simples. Handa deverá utilizar seu tempo de exílio para pensar no seu ato de violência enquanto busca desenvolver aquilo que o próprio curador lhe falou, um estilo próprio, único e criativo de caligrafia. Na mente de Handa, essa mudança por si só já é problemática, pois em toda sua carreira acreditou que o que fazia era o melhor, mas acabou descobrindo do modo mais conturbado que tudo o que ele fez desde sempre foi seguir normas e padrões.

Embora a ilha fosse um local onde Handa deveria encontrar isolamento, o que lhe ocorre é o extremo oposto. O estilo de vida no local é simples e humilde, quase como uma viagem no tempo, onde a tecnologia não é desenvolvida, as crianças brincam pelas ruas de terra e as pessoas investem seu tempo socializando umas com as outras, seja participando de festivais locais ou desfrutando de uma tranquila tarde de pesca. Esse espírito de fraternidade que torna todos os moradores desta pequena cidade é tão inclusivo que chega a dar a impressão de que todos fazem parte de uma grande e acolhedora família, e como faz parte de seu costume serem acolhedores, os nativos não permitirão que Handa se isole como costumava fazer por toda sua vida em Tóquio, ainda que isso signifique invadir sua privacidade de todas as formas possíveis.

Seja pelas constantes visitas do jovem Hiroshi Kido, sempre carregando uma marmita enviada à Handa pela sua mãe, ou pelas inoportunas adolescentes Tamako Arai e Miwa Yamamura, que insistem em usar a casa de Handa como um clube para comer salgadinho e jogar baralho, a vida de Handa sofre uma mudança brusca, tanto em seus valores como em seu modo de enxergar a realidade. A simplicidade da ilha se torna um verdadeiro reflexo daquilo que deveria ser importante para sua vida, mas que a agitação e as distrações de Tóquio não permitem Handa identificar. Em seu tempo de exílio ele vai aprender o verdadeiro significado de amizade, humildade e solidariedade, lições que, por fim, o levarão a encontrar não somente inspiração, mas seu verdadeiro eu artístico.

Críticas sutís

Se por um lado Barakamon fala em seus 12 episódios sobre o processo de desintoxicação que Handa passa ao se ver longe de uma metrópole e inserido em uma sociedade tão simples quanto amorosa e calorosa, por outro ele também aponta os problemas que lugares como a ilha possuem, como um hospital com baixa qualidade de atendimento ou a falta de um sistema de transporte, o que faz com que por duas vezes em que Handa precisa ir do aeroporto para sua casa na ilha ele precise pegar carona em uma espécie de trator para se locomover.

Outros problemas sociais também são apresentados em Barakamon, como as baixas expectativas de vida por parte da juventude local, que sonha em sair do interior para conseguir uma oportunidade de crescimento e desenvolvimento profissional em suas vidas. Hiroshi Kido, por exemplo, é um dos personagens que é fortemente afetado pelas situações difíceis do interior, tendo não apenas uma dificuldade em sua vida acadêmica da qual não consegue superar, como um desejo de desistência dela. Há, entretanto, personagens que conseguem contornar essas dificuldades e não se veem limitados pela vida no interior, como é o caso de Tamako Arai, que sonha em ser uma mangaká famosa (embora seus projetos sejam bem fora da realidade) ou seu irmão mais novo, Akki, o único que parece ter contato direto com tecnologia na ilha.

A inocência retratada

Falar de Barakamon sem falar das crianças não é falar de Barakamon, uma vez que elas são a grande atração do anime. Desde a chorona Hina Kubota ao valente Kentarou Oohama, as crianças são as personagens que mais afetam Handa e lhe proporcionam grandes mudanças ao longo da história. Elas constantemente colocam Handa em situações difíceis e constrangedoras e são as que o mais levam a momentos de verdadeira adoração e também humilhação, seja o locando para caçar insetos (coisa que ele odeia) ou empurrando no mar com roupa e tudo.

Mas nenhuma criança em Barakamon é tão importante quanto Naru Kotoishi, com quem Handa desenvolve um forte laço. Arteira, hiperativa, inocente e rebelde, ainda que o anime inteiro seja projetado para nos tirar boas risadas, é de Naru que vem as melhores piadas e os melhores momentos. Naru é a típica criança que nós achamos absurdamente incomodas até o momento em que estão distantes, é nesse momento em que nos tocamos que as amamos. Ela é a que mais constantemente invade a casa de Handa com um breve “Vim para brincar” como se não se importasse com o desejo da outra pessoa de brincar com ela, para Naru a vida é o momento do agora e enxergar a vida pelos seus olhos é o que faz com que Handa perceba o quanto ele vinha sobrevivendo e não vivendo até ali.

Conclusão

Se existe uma mensagem poderosa em Barakamon (presente inclusive na abertura e no encerramento) essa mensagem é sobre mudanças. A vida só possui realmente gosto quando estamos abertos a experimentar coisas novas: novos ares, novos olhares, novos pontos de vista. Quando nos permitimos ouvir opiniões diferentes das nossas, conviver com pessoas fora de nossas bolhas sociais e mesmo não concordando, respeitar os valores que não condizem com os que possuímos, enriquecemos nossas vidas de uma forma que nenhum outro método pode enriquecer.

Barakamon é um anime lindo e inocente, ainda que carregue uma crítica dura digna de uma dissertação sobre Zygmunt Bauman. Aqui não existe imediatismo, a inspiração que Handa tanto procura vem da prática, vem do esforço, mas vem também de abrir os olhos para executar uma capacidade que o ser humano sempre possuiu, mas veio perdendo ao longo dos anos, a de observação e contemplação das coisas a sua volta, seja da natureza ou das pessoas com quem convivemos. Barakamon também é um anime sobre laços e relações. Aqui não existe relações líquidas e passageiras, muito menos descartáveis. Cada relação é importante, cada contato que Handa faz tem um peso em sua vida. Até mesmo o rival de Handa, Kosuke Kanzaki, se importa com ele, demonstrando não uma visão utópica de sociedade, mas uma questão de respeito e honra. Existe a mensagem do crescimento e do desenvolvimento, a ideia de introspecção como etapa fundamental para o amadurecimento, mas a grande filosofia apresentada aqui é a de que não devemos temer que as coisas se tornem diferentes, pois mudar é ser capaz de aprender com o passado para se desenvolver no futuro. Aquilo que Barakamon nos ensina a temer é a estagnação.




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