Umbrella Academy - Conheça a nova série de super heróis da Netflix

Baseado no quadrinho de Gerard Way e Gabriel Bá, Umbrella Academy é a nova série original da Netflix, apresentando um roteiro onde uma família desestruturada de mutantes possui uma semana para salvar o mundo de um apocalipse enquanto despistam uma dupla de assassinos viajantes do tempo e ainda arranjam tempo para lavar a roupa suja entre irmãos.

21/02/2019 Última edição em 21/02/2019 às 18:25:28

Todos os dias costumo pegar um metrô nada simpático para trabalhar onde duas coisas implementadas pela prefeitura da cidade de São Paulo, local em que resido, se misturam de forma pouco convincente: música clássica (que por vezes pode ser a trilha sonora de Harry Potter) e, propagandas e anúncios pouco úteis nas televisões do transporte.               

Essa semana fui pego de surpresa por um anúncio de uma série nova no Netflix, uma tal de Umbrella Academy. Não olhei direito sobre o que se tratava, nem mesmo qual sua remota origem, apenas vi “viagens do tempo, ficção científica e apocalipse eminente”. Ok, como diria Adore Delano, Party! Fazia tanto tempo que vinha me sustentando apenas com documentários e livros de ciências humanas que resolvi dar uma chance a uma narrativa fictícia. 

Não foi de todo uma experiência positiva.

 

O ENREDO

Umbrella Academy conta a história de sete crianças que nasceram ao redor do mundo (dentre 43) de forma bastante peculiar, instantaneamente. Adotadas por um visionário rico, Reginald Hargreeves, seis dessas sete crianças foram criadas como super-heróis, recebendo missões de seu pai frio, distante e por vezes tirano, para combater o crime, adquirindo popularidade na sociedade, como é de se esperar de super-heróis.

Uma dessas crianças, Vanya, também conhecida como Número Sete, não manifestava poderes sobrenaturais, sendo criada como a única comum dentre as demais, tinha como único talento uma vocação notória para violino. Posteriormente seria autora de um livro que iria expor todas suas infelicidades em relação à sua família excêntrica, a colocando na posição de "persona non grata" dentre os demais. Uma posição que anteriormente já possuía, porém com menor intensidade.

Conforme os anos foram passando, as crianças cresceram e se tornaram adultas, e deixando seu lar em uma tentativa de obter vidas normais (ou quase). Uma delas, Ben, não obteve tanta sorte, e faleceu de um modo que a narrativa não explica nesta primeira temporada. Outra das crianças prodígios, chamada apenas de Cinco, também teve um fim nada gentil, desaparecendo por anos sem deixar se quer evidências de seu paradeiro. Assim, o grupo de heróis mirins conhecido como Umbrella Academy deixou de existir juntamente com seus feitos heroicos, caindo quase que totalmente no anonimato.

As crianças se tornaram tão comuns quanto um redator da Rede Blast (quem acredita nisso?).

O episódio piloto, “A gente só se encontra em casamentos e funerais”, reúne os irmãos remanescentes de volta ao antigo lar sob a misteriosa morte do pai adotivo, Reginald Hargreeves, mas é de longe o evento principal de abertura da série. A proposta da narrativa, de que apenas a Umbrella Academy pode evitar um apocalipse cada dia mais próximo (o prazo é de uma semana), é anunciada pelo retorno do personagem Cinco, cuja habilidade de se deslocar pelo tempo e espaço lhe permitiu viajar por décadas para o futuro e presenciar o fim da humanidade.

O retorno de Cinco ao presente deveria ser o ponto inicial para uma verdadeira batalha contra o tempo para salvar o mundo. Mas infelizmente não é assim que as coisas se desenrolam e a única coisa que ele realmente traz para o presente além de um olho de vidro muito suspeito são anos de experiência e uma alma velha e solitária em um corpo de um garoto na fronteira da puberdade.

A ORIGEM

Uma das coisas que só descobri sobre Umbrella Academy ao longo da semana em que acompanhava a série foi que a criação da HQ se deu pela junção do ex-vocalista da extinta banda My Chemical Romance, Gerard Way, e o quadrinista brasileiro Gabriel Bá. Esses seriam dois grandes motivos para que a série de heróis da Netflix se tornasse um ícone da cultura pop, mas as coisas não saíram exatamente com o esperado.

A HQ de Umbrella Academy é conhecida por sua insanidade e grau de loucura, desde cenas violentas ao extremo a palavrões e elementos pra lá de esquisitos. Traços de ficção científica se misturam com itens cômicos dando luz a uma verdadeira bizarrice, o que é agradável, divertido e faz com que a história tenha uma identidade própria e memorável. Seu charme. A Torre Eiffel tem vida própria nos quadrinhos, existem símios falantes e inteligentes ao longo do enredo. Há marcianos participando de ringues de vale tudo e até um vilão cuja cabeça é um aquário com um peixe solitário dentro. Todavia,  tudo isso é retirado da adaptação da Netflix, restando apenas um símio falante, Pongo, o mordomo da Umbrella Academy, e a peculiar Mãe da qual não darei mais detalhes para não virar spoiler, além de alguns outros tantos ingredientes que mereciam um melhor aproveitamento na trama.

Obviamente adaptações não são obrigadas a serem fiéis à obra original em tudo. O próprio nome já diz, adaptação. Isso significa que o enredo passa por mudanças para se adequar melhor ao novo canal ao qual será exposto. Mas retirar as particularidades de Umbrella Academy talvez tenha sido um dos principais motivos pelo qual a série acabou se tornando mais uma série de super-heróis ao invés de A série de super heróis.

Ou nem isso.

UMA SÉRIE SOBRE O TEMPO, PARA QUEM QUER PERDER TEMPO.

Quando eu era adolescente, as séries que assistia possuíam uma média de 20 episódios com duração de aproximadamente 40 minutos. Os episódios eram lançados uma vez por semana e as temporadas em duas partes, havendo um intervalo entre essas duas partes que interpretava como as férias do elenco.

Umbrella Academy possui 10 episódios em sua temporada de estreia, todos lançados de uma única vez pela Netflix. Algo que eu reclamaria a uns 10 anos atrás. Cada episódio possui em média uma hora de duração, o que seria tempo de sobra para se trabalhar uma narrativa sem muitas tramas secundárias, mas que na maioria do tempo é utilizado para trabalhar coisas desnecessárias, cansativas e previsíveis.

Quando se trabalha com um enredo onde mais de um personagem possuí destaque, espera-se que esse personagem tenha seu próprio núcleo, suas próprias sub-tramas e seus próprios conflitos individuais, paralelos ao conflito primário da obra. Podemos pegar como exemplo os X-Men, série com muitos personagens. Na versão teen da série, transmitida pelo SBT, X-Men Evolution, cada personagem tinha seus amigos e inimigos, seus conflitos e dramas pessoais e episódios destinados a abordar esses conflitos, ainda que no final eventualmente envolvesse o grupo inteiro para resolver os problemas. Em Umbrella Academy você não conhece praticamente nenhum outro personagem que fez parte da vida dos protagonistas. Cada personagem tem no máximo dois conhecidos em uma sub-trama pobre, outros, como Luther, o cara grandalhão da super-força e Klaus, o chapado que consegue entrar em contato com os mortos, não possuem nenhum conhecido e nenhuma sub-trama, restando apenas um conflito interno para não deixa-los mais rasos e mal desenvolvidos do que já são. Ben, então, nem se fala, é o personagem mais apagado da série, sendo praticamente extinto do grupo principal, existindo apenas para dar ênfase nos poderes "necromantes" do irmão, Klaus.

Alisson, a garota com habilidades hipnóticas, é uma celebridade da indústria cinematográfica, mas em poucos momentos você tem essa impressão de que diante de si está uma atriz de Hollywood, tendo apenas dois momentos em que personagens de fora do núcleo principal reagem à Alisson como se reagissem a uma estrela de cinema.

Esse é um dos maiores defeitos da série, visto que a ausência de sub-tramas torna óbvio a aparição de personagens suspeitos e fazem o espectador nunca ser pego de surpresa pelo roteiro. Você sempre está um passo a frente da narrativa e sempre sabe o que vai acontecer antes que aconteça. A história é óbvia.

Em 10 episódios de aproximadamente uma hora de duração, estamos falando de quase 10 horas de história. Isso daria praticamente a trilogia de O Senhor dos Anéis. É tempo de sobra para se contar muita história e para se trabalhar muitas coisas em uma trama. Umbrella Academy conta tão poucas coisas, que poderia facilmente não ser uma série, mas um filme.

Muitos acontecimentos são descartáveis e não contribuem para a trilha de desenvolvimento da série, como os acontecimentos envolvendo Klaus e uma pessoa por quem desenvolve sentimentos no episódio seis. Outros são enfadonhos e cansativos, como os longos períodos em que Cinco fica atrás de uma “pista” do futuro que o levaria ao responsável pelo apocalipse, quando tudo o que ele faz é ficar de tocaia em frente a um prédio sem fazer absolutamente nada, mesmo sendo o único que sabe sobre os acontecimentos vindouros. Há vezes em que dá a impressão de que Cinco tem problemas mentais, visto ele ser útil e inútil na mesma proporção, enquanto os demais irmãos são simplesmente carregados nas suas costas até o final da temporada.

Por vezes você esquece que tem um fim do mundo logo ali, no final de semana, esperando todos eles.

Outra coisa que incomoda bastante é que mesmo se tratando de uma série de super-heróis você não vê nunca momentos de heroísmo no presente dos personagens. Eles também não são tratados ou lembrados como heróis pela sociedade. Não há imprensa, não há mídia, não há nada para lhes dar o holofote de um herói, e o mais próximo de acontecer disso é quando alguém tem uma epifania como: “Você era daquele negócio de Umbrella Academy, não é?”. E... Só. O que talvez me leve ao questionamento de que possa ter entendido a história de forma errada. Umbrella Academy não seria a história de super-heróis, mas a história de super-poderes.

A série sempre te faz esperar para que algo aconteça. Mas dificilmente algo acontece.

AS COISAS QUE TE LEVAM ATÉ O FINAL

Alguns personagens podem ser agradáveis, como o gentil Luther, o cômico Klaus, e o rebelde Diego, mas o motivo é único, você já os conhece de outras histórias. O líder gentil, sério e moralista, comprometido com seu senso de dever e preso aos seus ideais de responsabilidade, você já viu isso no Superman, no Ciclope, no Capitão América e até no Ranger Vermelho. É o típico herói que fica na frente das capas de HQs. O arquétipo de herói aqui presente poderia ser chamado claramente de O Líder.  Essas fórmulas já foram usadas e abusadas pelos roteiristas de Hollywood que se afogam nos ensinamentos de Joseph Campbell. Tanto que muitos outros livros de análise de roteiros, como Jornada do Escritor, de Christopher Vogler, já dissecam esses trabalhos com facilidade.

Os pontos positivos de Umbrella Academy não estão nas coisas agradáveis, mas nas coisas divertidas e loucas. Muito tem se falado sobre a atuação de Ellen Page como Vanya, e sabemos que Ellen Page é fantástica como atriz, mas a personagem Vanya parece muito mais com Ellen Page do que Ellen Page parece com a personagem Vanya, só começando a tomar forma na reta final da temporada, onde tanto a atriz quanto a personagem atingem seus ápices.

Se eu fosse entregar um troféu para alguém em Umbrella Academy ficaria, sem dúvidas com Hazel (Cameron Britton) e Cha-Cha (Mary J. Blige), os assassinos contratados pelos vilões para matar o personagem Cinco. Todas as melhores cenas envolvem Hazel e Cha-Cha, desde as melhores trilhas sonoras, as melhores linhas de diálogo, as melhores cenas de ação, inclusive as melhores curvas de desenvolvimento dos personagens. Você é constantemente pego torcendo por essa versão perigosa de Jassie e James e vibrando de alegria a cada momento em que eles aparecem, seja no envolvimento de Hazel com uma vendedora de rosquinhas ou nas habilidades marciais fenomenais de Cha-Cha. Ainda que seja um pouco difícil explicar como Hazel, sendo um humano comum, consegue sair de boa em uma briga mano a mano contra o herói da super força, Luther, mas perder em uma discussão para sua parceira.

Outro ponto forte e muito interessante fica por conta do ambiente de trabalho dos vilões, a companhia que os designa os serviços. É tudo tão comum, tão... Empresa de contabilidade, que acaba sendo absurdamente divertido saber que aquela é a Fortaleza Negra de Umbrella Academy. A Gestora, personagem de Kate Walsh, também é um colírio para os olhos. Cômica, divertida e de um jeito totalmente único, diabólica (e inconveniente), essa também é uma daquelas personagens que você quer ver sempre.

Mas eu estaria sendo completamente injusto se deixasse de fora dos elogios o brilhante Aidan Gallagher, o Cinco. Aidan tem quinze anos de idade, mas recebeu a função de interpretar um homem de mais de cinquenta anos preso no corpo de um garoto, com aparência de 12 anos. Não existe um único momento em que você olhe para Aidan e veja um garoto. Sua atuação é impecável, o personagem é muito bem construído, com seus traumas, orgulho e psicoses (e sua amiga Delores, a manequim), fazendo com que Cinco seja, de longe, o personagem mais original do núcleo principal.

CONCLUSÕES NÃO PRECIPITADAS

Umbrella Academy poderia ter investido no que tornou o HQ querido sem necessariamente repetir tudo o que há lá. Não havia necessidade de imitar completamente os quadrinhos, mas apostar na bizarrice teria potencializado muito a série, e a prova disso é que as melhores coisas são as bizarras, desde a trilha sonora de Gerard Way (aproveitador) combinadas com as cenas de tiroteio e as máscaras medonhas de Hazel e Cha-Cha, ou aos bons efeitos especiais somados com uma fotografia agradável, que remete muitas vezes aos anos 50, mesmo se tratando de uma série em um mundo contemporâneo.

A série pecou no mau gerenciamento de tempo. Episódios longos com poucos conflitos e poucas coisas acontecendo. Um enredo que se arrasta por quase toda a série e só deslancha nos três últimos episódios, e uma ausência de sub-tramas, protagonistas mal desenvolvidos e falta de conflitos úteis.

Ao lado dos elementos esquisitos que tornam divertido assistir ao show, o elenco foi muito bem escolhido. Robert Sheeman, como Klaus, embora seja um personagem previsível, (facilmente imaginável em Johnny Depp) tem tanta capacidade para roubar a cena como Sheila McCarthy, a adorável Agnes, e sua versão perturbadora, mas doce, Grace, de Jordan Claire Robbins.

Umbrella Academy tem tudo para aprender com os erros e fazer uma segunda temporada espetacular. Mas, por enquanto, trata-se de uma série cansativa, com longas horas preenchidas por imensos vazios que recompensam quem assiste com um final interessante, mas deixa a questão no ar: vale a pena se arrastar por tanto tempo para ter uma conclusão agradável quando todo o material decente se resume a um longa de duas horas e meia?




1 comentário(s)
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Ashllan
8 meses atrás
Nossa gostei muito foi análise mais completa que vi dessa série
Bem completa mesmo viu kkkk