Tiro, porrada e bomba: O que deu errado no desenvolvimento de Battlefield V

Shooter da EA Dice chegou às lojas com pré-vendas “fracas” e números inferiores ao antecessor. Afinal, onde foi que a EA errou?

10/12/2018 Última edição em 10/12/2018 às 08:19:11

Após a polêmica de Star Wars Battlefront 2 no ano passado, em grande parte devido ao seu sistema de progressão que exigia um investimento de milhares de horas no jogo dos jogadores que desejassem desbloquear personagens como Darth Vader e Luke Skywalker, incentivando o uso de dinheiro real para desbloquear os ícones mais famosos da famosa saga sci-fi, a Electronic Arts teve que lidar com uma legião de fãs que se sentiram injustiçados pela empresa, já famosa na indústria por seus jogos recheados de microtransações. De lá pra cá, a EA trabalhou em uma série de modificações ao sistema de microtransações do irmão intergalático de Battlefield com base nas reclamações da comunidade, e acabou por liberar o acesso a todos os personagens do game de maneira gratuita em Março de 2018, quatro meses depois do lançamento conturbado do shooter, em Novembro de 2017.

Um ano depois, em Novembro de 2018, outro grande lançamento marca a trajetória da empresa, porém, novamente, de maneira negativa. Battlefield V, o décimo sexto jogo da série de FPS que estreou em 2002 com Battlefield 1942, enfrenta resistência desde o lançamento de seu primeiro trailer, três semanas antes da E3 de 2018. O trailer, postado no canal oficial da franquia no Youtube no dia 23 de Maio, tinha até o início de Dezembro mais de 13 milhões de visualizações, e cerca de 500 mil dislikes. Na seção de comentários, o que mais chama a atenção é o motivo do número elevado de reações negativas ao vídeo, superior ao de reações positivas: grande parte dos usuários justifica suas críticas ao jogo com base na presença de uma soldado do sexo feminino no trailer. A mulher, que também possui um braço mecânico em substituição a seu braço esquerdo, simbolizou o que os críticos apontaram como uma representação exagerada e historicamente imprecisa da participação de minorias na 2ª Guerra Mundial, conflito que contou com a participação de centenas de milhares de mulheres tanto nos fronts de batalha, quanto em outras posições outrora ocupadas somente por homens. A insatisfação dos jogadores, no entanto, não se limitou ao aspecto da inclusão de minorias no trailer, atentando-se também para o gameplay apresentado pela desenvolvedora. Segundo usuários, o primeiro trailer de Battlefield V contaria com uma dinâmica incompatível com a experiência real do game, uma vez que o vídeo alternava entre cinemáticas e gameplay de maneira extremamente natural, conectando cutscenes e ação em modo multiplayer com uma fluidez que seria impossível de ser aplicada na prática.

Primeiro trailer de Battlefield V foi recebido com duras críticas pela comunidade.

As extensas manifestações da comunidade gamer levaram o então diretor de criação da EA Patrick Söderlund, um dos principais nomes por trás da série Battlefield, a dar uma resposta irreverente, que acabou por intensificar ainda mais a onda de negatividade contra o shooter. Em entrevista ao site Gamasutra, Söderlund disse que a ideia de incluir personagens do gênero feminino em Battlefield V veio da própria equipe de desenvolvimento, e deu uma afirmação que saiu como um verdadeiro tiro no pé do marketing do jogo. Segundo ele, os jogadores que não entendessem a decisão da EA com relação à inclusão de minorias no game seriam “mal-educados”, e teriam somente duas opções: “Ou aceitam [nossas escolhas], ou não compram o jogo”. E os jogadores acataram a sugestão.

Durante a reta final do desenvolvimento de Battlefield V, jogadores insatisfeitos com a postura da Electronic Arts decidiram promover um boicote ao jogo. Com a maré jogando contra os first person shooters da empresa desde o lançamento de Battlefield 1, e uma tsunami avassalando suas atividades desde a polêmica das microtransações, que afetaram tanto Battlefront 2 como outros títulos da produtora, o sucesso de seu mais recente retrato da 2ª Guerra Mundial poderia estar fadado a ter o mesmo destino que os soldados Aliados na batalha da Normandia. Foi em meio a este caos que, no dia 14 de Agosto, a Electronic Arts, por meio de comunicado oficial assinado pelo CEO da empresa Andrew Wilson, anunciou o desligamento de Söderlund da empresa após 12 anos trabalhando em títulos produzidos pela DICE, subsidiária da EA responsável pelos jogos da série Battlefield, Battlefront e Mirror’s Edge, além de ter desenvolvido o motor gráfico Frostbite, marca registrada dos jogos mais recentes da EA. Embora o comunicado não revele os motivos nem as circunstâncias exatas da saída do ex-diretor de criação da produtora, rumores já apontavam o desquite entre Söderlund e a EA meses antes de sua despedida de fato. Pouco tempo depois do anúncio, contudo, outra bomba caiu sobre os fãs da franquia: o lançamento do jogo, inicialmente marcado para o dia 19 de Outubro, seria adiado para o dia 20 de Novembro - um mês depois do que havia sido inicialmente estipulado. O motivo para a mudança no calendário seria justificado por “mudanças significativas” ao gameplay e ao ritmo de jogo, de acordo com postagem em nome de Oskar Gabrielson, Diretor Geral da DICE, no site oficial da franquia - postagem que não faz menção a qualquer outra crítica por parte dos jogadores.

Battlefield V enfrentou resistência desde sua revelação, em Maio.

Ainda que a EA tenha anunciado que todas as DLCs de Battlefield V serão gratuitas, e que as únicas microtransações incluídas no game serão voltadas para itens cosméticos que não afetam o gameplay, o impacto negativo do marketing do jogo sobre a opinião pública fez com que o número de pré-vendas do shooter ficasse abaixo do esperado, de acordo com o grupo de investimentos Cowen. Embora Mat Piscatella, analista da indústria de jogos eletrônicos do grupo NPD, afirme que o número de pré-vendas não é indicativo tão preciso do sucesso de um jogo quanto era antigamente, o fato é que os estudos do Cowen Group apontam para um desempenho mercadológico de Battlefield V inferior aos de Call of Duty: Black Ops 4, seu principal rival no ramo dos first person shooters; e Red Dead Redemption 2, o grande jogo da Rockstar para 2018. Isso vem se confirmando já nas primeiras semanas de prateleira de Battlefield V, que vendeu menos da metade de unidades que seu antecessor Battlefield 1 nos primeiros cinco dias. Ainda que grande parte das vendas de Battlefield V seja feita digitalmente, o desempenho insuficiente na venda de cópias físicas pode ser um alarme para o futuro do shooter.

A versão básica de Battlefield V chegou às lojas no dia 20 de Novembro. Jogadores com Origin Access Premium tiveram acesso ao jogo desde o dia 9, e aqueles que fizeram a pré-compra da versão Deluxe do game ganharam acesso antecipado no dia 16. O jogo conta com um modo singleplayer similar ao de Battlefield 1, que se propõe a contar histórias de pessoas e lugares desconhecidos pelo público e um multiplayer com novos modos de jogo, incluindo o chamado Firestorm, nos moldes dos populares Battle Royales como PUBG e Fortnite. O modo de jogo, anunciado durante a EA Play deste ano, está sendo desenvolvido em parceria com a Criterion Games, outra subsidiária da Electronic Arts, e será disponibilizado somente em 2019. Ainda não se sabe muito sobre Firestorm, mas a DICE garante que o Battle Royale de Battlefield V terá suporte para até 16 equipes de 4 jogadores cada, e contará com o maior mapa da história da franquia. Embora a EA esteja mantendo segredo sobre Firestorm, os fãs da franquia já redobram a atenção sobre o modo, que baterá de frente com o modo Blackout de Black Ops 4 e com outros Battle Royales disponíveis no mercado. Com a extinção de conteúdo adicional pago para Battlefield V (com exceção de skins e customizações), a Electronic Arts demonstra estar atenta às exigências do público e comprometida a ouvir e aceitar o feedback dos fãs. Resta saber se os pontos positivos de Battlefield V representarão uma mudança geral nos rumos da empresa, ou se funcionarão como um agrado pontual a uma comunidade que demanda mais responsabilidade e transparência das desenvolvedoras e das publishers.




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