SÉRIE JAPÃO PELOS OLHOS ORIENTAIS - Hachiko tem uma lição para te ensinar

Conheça um pouco mais sobre o Japão e sobre um cão que teve sua fidelidade levada até as últimas consequências. Um cão que emocionou milhares de pessoas no mundo e inspirou muitas histórias e contos.

11/01/2017 Última edição em 11/01/2017 às 16:39:16

Esta é a primeira postagem que farei sobre a minha experiência de 15 dias no Japão. Quis começar com esta história porque, de todas as histórias, esta foi a que eu mais ouvi e a que mais me motivou a ir até o Bairro de Ueno, em Tóquio.

Você já deve ter ouvido falar e até deve ter assistido ao filme "Sempre ao Seu Lado", que conta a história de um cão que leal e fiel que esperou seu dono até o último dia de sua vida na frente de um estação de trem. No primeiro momento, você pode pensar que é apenas uma história para crianças, mas a verdade é que Hachiko não apenas existiu, mas mostrou que a fidelidade é o melhor modo de se mostrar, muitas vezes, carinho, afeto e amor.

Caso, por um mero acaso, você não conheça a famosa história de Hachiko, segue ai um breve relato:

Em 1924, Hachikō foi trazido a Tóquio pelo seu dono, Hidesaburō Ueno, um professor da Universidade de Tóquio. O professor Ueno, que sempre foi um amante de cães, nomeou-o Hachi (Hachikō é o diminutivo de Hachi) e o encheu de amor e carinho. Hachikō acompanhava Ueno desde a porta de casa até a não distante estação de trens de Shibuya, retornando para encontrá-lo ao final do dia. A rotina continuou até maio do ano seguinte, quando numa tarde o professor não retornou em seu usual trem, como de costume. A vida feliz de Hachikō como o animal de estimação do professor Ueno foi interrompida apenas um ano e quatro meses depois. Ueno sofrera um AVC na universidade naquele dia e morreu, nunca mais retornando à estação onde sempre o esperara Hachikō.

Na noite do velório, Hachikō, que estava no jardim, quebrou as portas de vidro da casa e fez o seu caminho para a sala onde o corpo foi colocado e passou a noite deitado ao lado de seu mestre, recusando-se a sair. Ainda, diz-se que quando chegou a hora de colocar vários objetos particulares amados pelo falecido no caixão com o corpo, Hachikō pulou dentro do caixão e tentou resistir a todas as tentativas de removê-lo.

Depois que seu dono morreu, Hachikō foi enviado para viver com parentes do professor Ueno, que moravam em Asakusa, no leste de Tóquio. Mas ele fugiu várias vezes e voltou para a casa em Shibuya, e, quando um ano se passou e ele ainda não tinha se acostumado à sua nova casa, ele foi dado ao ex-jardineiro do Professor Ueno, que conhecia Hachi desde que ele era um filhote. Mas Hachikō fugiu daquela casa várias vezes também. Ao perceber que seu antigo mestre já não morava na casa em Shibuya, Hachikō ia todos os dias à estação de Shibuya e esperou que ele voltasse para casa. Todo dia ele ia e procurava o professor Ueno entre os passageiros, saindo somente quando a fome o obrigava. E ele fez isso dia após dia, ano após ano, em meio aos apressados passageiros. Hachikō esperava pelo retorno de seu dono e amigo.

A figura permanente do cão à espera de seu dono atraiu a atenção de alguns transeuntes, alguns inclusive que  já haviam visto Hachikō e o professor Ueno juntos. Percebendo que o cão esperava em vão a volta de seu mestre, ficaram tocados e passaram, então, a trazer petiscos e comida para aliviar sua vigília.

Por dez anos contínuos, Hachikō aparecia ao final da tarde, precisamente no momento de desembarque do trem na estação, na esperança de reencontrar-se com seu dono.

Não demorou e Hachiko ficou conhecido, principalmente depois que um ex-aluno do professo Ueno viu o cão na estação aguardando seu dono. Houve muitas publicações em jornais e revistas especializadas.

Porém, a fama repentina de Hachikō fez pouca diferença para a sua vida, pois ele continuou exatamente da mesma maneira como antes. Em 1929, Hachikō contraiu um caso grave de sarna, que quase o matou. Devido aos anos passados nas ruas, ele estava magro e com feridas de brigas com outros cães. Uma de suas orelhas já não se levantava mais, e ele já estava com uma aparência miserável, não parecendo mais com a criatura orgulhosa e forte que tinha sido uma vez. 

Como Hachiko envelheceu, tornou-se muito fraco e sofria de dirofilariose, um verme que ataca o coração. Na madrugada de 8 de março de 1935, com idade de 11 anos, ele deu seu último suspiro em uma rua lateral à estação de Shibuya. Ele esperou seu dono por nove anos e dez meses. A morte de Hachikō estampou as primeiras páginas dos principais jornais japoneses e muitas pessoas ficaram inconsoláveis com a notícia.

Um dia de luto foi declarado.

Seus ossos foram enterrados em um canto da sepultura do professor Ueno , para que ele finalmente se reencontrasse com o mestre a quem ele havia ansiado por tantos anos. Sua pele foi preservada e uma figura empalhada de Hachikō pode ainda ser vista no Museu Nacional de Ciências em Ueno.

Em 21 de abril de 1934, uma estátua de bronze de Hachikō, esculpida pelo renomado escultor Tern Ando, foi erguida em frente ao portão de bilheteria da estação de Shibuya , com um poema gravado em um cartaz intitulado "Linhas para um cão leal".  

Todo dia 8 de março é realizada uma cerimônia solene na estação de trem, em homenagem à história do cão leal.

A lealdade dos cães da raça Akita já era conhecida pelo povo japonês há muito tempo. Em uma certa região do Japão, incontáveis são as histórias de cães desta raça que perderam suas vidas ao defenderem a vida de seus proprietários. Onde quer que estejam e para aonde quer que vão, têm sempre "um dos olhos" voltados para aqueles que deles cuidam. Por causa desse zelo, o Akita se tornou Patrimônio Nacional do povo japonês, tendo sido proibida sua exportação. Se algum proprietário não tiver condições financeiras de manter seu Akita, o governo japonês assume sua guarda.

Isso é toda a lenda de Hachiko.

E o que eu vi diante de mim?

Quando fiquei frente a frente com a estátua, me deu um nó na garganta. Como pode um animal que julgamos não compreender qualquer coisa ser tão fiel e ter valores tão leais e apegados? Diante da estátua, você se pergunta se não são os seres humanos que estão errados, que somos nós que devemos aprender alguma coisa com estes seres que, sem pretensão nenhuma, sem qualquer pedido de troca, nos amam e nos devotam de forma tão intensa.

No dia em que me coloquei na frente de Hachiko estava chovendo e foi ainda mais doloroso. A estátua é disputada, todos querem tirar fotos e estar, ainda que alguns momentos, com Hachiko, falar com ele e dizer que está tudo bem. É possível ver famílias, crianças e todos os tipos de pessoas ali na frente de uma imagem de bronze que simboliza toda a devoção de um ser e ver o quanto a mensagem é universal.

Eu particularmente fiquei feliz de poder ver Hachiko, anos e anos eu conheci a sua história, me emocinei com o filme "Sempre ao Seu Lado", inspirado em Hachiko, e, mais que isso, eu sempre pensei que ele tivesse tido uma morte mais digna, mas a verdade é que nem sempre é possível.

Realmente, foi um momento emocionante tocar a pata dele e dizer que agora ele estava bem. Parece bobagem isso, mas é impossível ficar insensível diante de um cão que fez muito mais que qualquer um, que amou uma única pessoa em sua vida toda e que se dedicou a uma única causa sua vida toda, até a sua morte.

Se for ao Japão, e especialmente para Tóquio, vá ver Hachiko, ele esta lá para nos lembrar que a fidelidade é uma das maiores coisas que podemos fazer pelas outras pessoas.




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