Kitbull - Novo curta da Pixar traz mensagem importante para tempos atuais

A Disney-Pixar lançou o curta-metragem Kitbull, a história de uma improvável amizade entre um Pitbull maltratado e um gato de rua. Das lágrimas à revolta, o curta alfineta um dos cenários mais sombrios das sociedades urbanas e mexe com os amantes de animais com êxito.

22/02/2019 Última edição em 23/02/2019 às 08:10:37

Eu sempre achei fofo e ao mesmo tempo ordinário os curtas-metragens. Durante toda a minha vida, curtas eram nada mais do que aqueles filmezinhos da Pixar que antecediam as grandes produções, o material que realmente interessava, e não traziam nada além de risos rápidos para preparar o clima da atração principal, como um bando de pombos brigando em um fio de poste elétrico por um pouco de espaço. Levei muito tempo para perceber que um curta pode ser tão profundo e importante quanto um longa-metragem e atualmente defendo a ideia de que tempo de duração nunca foi e nunca será sinônimo de qualidade.

Hoje venho falar sobre um curta da Pixar, sim, mas prometo retornar com outras produções de outros estúdios em breve. Sem mais delongas, apresento-lhes Kitbull. Escrito e dirigido por Rosana Sullivan (na imagem acima) e produzido por Kathryn Hendrickson, o curta foi publicado oficialmente no canal da Disney-Pixar nesta última segunda-feira (18) e apresenta uma história de esperança e amor tão forte e ao mesmo tempo tão triste, que você vai ficar na dúvida se dá risada, se suspira ou se chora.

Kitbull conta a história da relação de confiança e amizade entre um típico gato de rua, sorrateiro, solitário e desconfiado, e um pitbull confuso e carente, vítima de maus tratos por seu proprietário, constantemente acorrentado e agredido, além de incentivado a ser um animal violento e antissocial. Durante os oito minutos de duração, o curta transforma o medo e a desconfiança entre cão e gato em uma situação de cumplicidade que culminará em um desfecho grandioso e feliz, como acontece com todos os curtas da Disney-Pixar.

Uma das coisas diferentes em Kitbull em relação a outros curtas se encontra em seu processo da produção. Kitbull é uma animação em 2D, algo bem incomum de se ver na Pixar, e sua parte de ilustração foi feita artisticamente a mão, exatamente como os grandes clássicos do estúdio norte americano, sendo anexado aos backgrounds dos ilustradores em um estilo próprio para remeter ao ambiente urbano e por vezes precário que toda cidade possui. Uma das melhores curiosidades em torno do curta é que ele não se passa em um local fictício. Toda a ambientação trata-se, na verdade, do bairro de Mission District, San Francisco, um local que também não foi escolhido por acaso, uma vez que já foi o lar de Susana Sullivan.

O curta foi projetado inicialmente para ser uma história sobre gatos, mas após muitos vídeos de gatinhos usados como base para desenvolver as ilustrações e até mesmo a personalidade do gato de Kitbull, outros elementos foram incorporados ao projeto, como as experiências e perfil infantil de Rosana Sullivan, que implementou a dificuldade que possuía para estabelecer laços e conexões em sua criação culminando em um curta que justamente fala sobre esse assunto.

Uma das coisas que mais me chamou a atenção em Kitbull, infelizmente, não foi a estética 2D transbordando fofura e profissionalismo que a animação possui, mas a onda frequente que temos visto nas mídias de casos de violência contra os animais, como o cão Manchinha, morto por um dos seguranças da rede de supermercados Carrefour, ou o caso da idosa de 72 anos que assassinou um gato dentro de um mercado em Paraty, RJ. Uma das notícias mais comentadas da semana tem girado em torno da ativista de defesa dos animais Luisa Mell, e as diversas ameaças de morte que tem recebido desde suas últimas ações contra um local que mantinha preso 1.700 animais de forma irregular. Todo esse cenário tornou Kitbull uma animação que passa algo muito além de uma mensagem de solidariedade e compaixão, mas também uma identificação triste de se admitir.

Há algum tempo curtas-metragens, mesmo as animações da Pixar, tem transmitido muito mais mensagens de reflexão do que apenas momentos de sorriso, como foi o caso da animação BAO, presente no filme Os Incríveis 2, retratando de forma bem incisiva o relacionamento mãe-filho. Com Kitbull a situação não é nada diferente. Sullivan e Hendrickson poderiam ter escolhido qualquer raça de cachorro para retratar abandono e maus tratos de animais, mas escolheram justamente o Pitbull, uma vez que o curta não fala apenas sobre maus tratos, mas também sobre a indução ao comportamento violento e discriminação da raça. Não é raro ouvir que Pitbull é raça perigosa, é uma raça hostil e violenta, quando na verdade raças de grande porte como Pitbull são induzidas a serem violentas por seus proprietários. A escolha do gato pode não ter tido um contexto tão bem trabalhado quanto a do cão, mas também é obvia. Um gato preto. Quantas vezes não ouvimos que gatos pretos dão azar? É comum que os gatos pretos sejam os menos adotados em abrigos, chegando motivar campanhas  de incentivo de adoções para eles. Visto tudo isso, podemos concluir que Kitbull não é uma animação com mensagens estritamente ativas, mas também é uma animação com um belíssimo trabalho de semiótica e muitas reflexões e críticas em torno das sociedades urbanas e os perigos que elas impõem aos animais abandonados nas ruas.

Kitbull é uma animação que agrupa o inovador com o nostálgico ao reunir uma temática de praxe da Pixar em uma produção com elementos de 2D, algo que há tempo não víamos. Os personagens são queridos e carismáticos, com uma escolha de mensagem profunda e ao mesmo tempo crítica. Adorável, e simultaneamente trágico, mas como todo trabalho da Pixar, vale a pena os oito minutos.




1 comentário(s)
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LaylaBoy
2 semanas atrás
Eu me emocionei muito com a animação, foi muito delicada, mesmo tratando de alguns assuntos pesados, conforme foi tratado na matéria. A sensibilidade com que trabalharam os temas me deixou muito emocionada!