Flamel, Alquimia e a sua relação com “Fullmetal Alchemist”

A Cruz de Flamel, que aparece frequentemente no anime “Fullmetal Alchemist”, possui inúmeros significados, então vamos entender um pouco da simbologia desse signo do mundo real?!

22/09/2018 Última edição em 22/09/2018 às 23:38:19

A “Cruz da Serpente”, “Cruz de Flamel”, ou ainda apenas “Flamel”, é um símbolo místico alquímico descrito como uma cruz com uma cobra ou serpente envolvida, bem como asas destacadas e uma coroa acima delas.

Esse símbolo assemelha-se e compartilha origens comuns com muitos outros símbolos antigos (com os quais é às vezes confundido), como a “Haste de Asclépio”, o antigo símbolo grego da medicina, o "Caduceu", antigo símbolo grego relacionado ao deus Hermes, e o “Nehushtan”, um símbolo hebreu que significa a vitória sobre o diabo. Ele é também um dos símbolos atribuídos ao alquimista francês Nicolas Flamel. A cruz aparece nas ilustrações de Flamel e muitos dizem simbolizar a relação dele com a “Pedra Filosofal”, um artefato cheio de mistérios e que, segundo a crença, levaria seu possuidor a ter uma vida muito longa.

Este símbolo aparece corriqueiramente no anime Fullmetal Alchemist. No universo dessa obra, é possível encontrar algumas referências a símbolos reais, como o “Ouroboros” e o próprio “Flamel”.

Em Fullmetal Alchemist aprendemos que:

A alquimia é uma ciência de compreensão, decomposição e recomposição da matéria. Porém, não é uma técnica onipotente, pois não é possível criar algo do nada. Se você deseja obter algo, é preciso pagar um preço equivalente, este é o princípio da alquimia, a chamada lei da troca equivalente.

E isso está correto. Lavoisier, considerado o Pai da Química moderna diz em sua “lei” sobre a conservação de massas: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Ao mesmo tempo, a chamada “terceira lei de Newton” afirma que a toda ação corresponde a uma reação de igual intensidade, mas que atua no sentido oposto. A força é resultado da interação entre os corpos, ou seja, um corpo produz uma força e outro corpo recebe essa força. Durante seus estudos, Isaac Newton percebeu que a toda ação (força ou energia) corresponde a uma reação, ou seja, não é possível, segundo Newton e Lavoisier, criar algo “do nada”, seja ela força (energia) ou matéria.

A alquimia, tanto em Fullmetal Alchemist, como na vida real, foi (e talvez ainda seja) uma ciência que se mistura com o misticismo. Ela era praticada durante a Idade Média, e os atuais químicos a consideram como “A Química da Idade Média”, ou ainda como “A Precursora da Química Atual”. Seu principal objetivo era descobrir a Pedra Filosofal, uma substância que seria capaz de transformar chumbo em ouro.

Como em quase tudo que envolve misticismo, há muita subjetividade nas representações, de modo que muitos estudiosos relatam que “transformar chumbo em ouro” signifique conseguir transformar algo impuro, inacabado, imperfeito, em algo puro, pleno, perfeito, infinito. Uma interpretação subjetiva pode levar a ideia de que os alquimistas buscavam elevar a alma a uma plenitude superior, ou seja, elevá-la, de um estágio normal, a um estágio de perfeição. Porém, há interpretações que levam a acreditar que os alquimistas buscavam mesmo a transformação do chumbo (Pb) em ouro (Au), indicando que eles buscavam apenas riqueza. Sinceramente, essa interpretação, embora explorada em algumas obras de ficção, é, para mim, bem menos plausível.

Como consequência dessa busca incessante pela Pedra Filosofal, os alquimistas acabaram por estudar e desenvolver técnicas consideradas bastante avançadas para a época, como a técnica de destilação por exemplo.

No anime, a alquimia tem princípios bem semelhantes à realidade, inclusive quanto a presença da Pedra Filosofal. As ideias básicas dessa alquimia constituem na manipulação da matéria através da energia e a chamada “troca equivalente”. Essa manipulação também é chamada de “transmutação” e é dividida em três passos básicos: compreensão, decomposição e recomposição.

Como já disse, a Pedra Filosofal representa o principal objetivo dos alquimistas, já que ela supostamente poderia prolongar a vida e/ou transformar metais em ouro. No anime, ela também tem um grande valor, sendo a pedra o objetivo dos irmãos Elric para conseguirem recuperar seus corpos, que foram perdidos (parcialmente, no caso de Edward) enquanto realizavam uma transmutação humana. Com o desenrolar da trama, eles descobrem que a Pedra só é conseguida através de um grande sacrifício.

No anime, a alquimia é feita, normalmente, com o uso de “círculos de transmutação”, que são desenhos feitos em algum local do cenário ou que já estão presentes nas vestimentas ou no corpo do alquimista. Cada círculo representa um tipo de manipulação do fluxo de energia, para que, assim, seja possível controlar ou transformar a matéria ao redor. Temos como exemplos, o círculo de transmutação das chamas usado por Roy Mustang e o círculo da água usado por Ice, no início do anime. Uma curiosidade: Edward Elric não necessita de círculos de transmutação, porém se você quiser saber o motivo, vá assistir o anime! xD

Sem dúvida, o “Flamel” e o “Ouroboros” são os símbolos que mais aparecem no anime Fullmetal Alchemist. O “Flamel” aparece atrás da capa de Edward, no ombro da armadura de Alphonse e no corpo de Izumi, a professora dos dois. O símbolo do “Ouroboros” é um símbolo representado por uma serpente ou um dragão que morde a própria cauda, e está presente nos corpos dos Homúnculos, que são criaturas criadas através da Alquimia, geralmente para suprir a falta de algum humano que veio a falecer. O nome “ouroboros” vem do grego antigo: οὐρά (oura) que significa "cauda" e βόρος (boros), que significa "devora", assim a palavra designa "aquele que devora a própria cauda”. Segundo muitas crenças, as serpentes, representadas no Caduceu (aquele símbolo com serpentes entrelaçadas em um bastão) e no Ouroboros (devorando a própria cauda), simbolizam a “alma elevada”, “extasiada no nirvana”, “luminosamente entelequiada”, como consta no livro “O Yoga Hiperbóreo” de Gustavo Brondino.

Por terem tanta representação nesse anime, esses dois símbolos são muito usados pelos “otakus” seja nas roupas, acessórios ou até mesmo em tatuagens.

(Tatuagem nova do Dj Nobu que deu origem a esta matéria)

Mas vamos voltar a falar sobre o “Flamel” e seu significado em cada um de seus elementos.

Serpente: na “Cruz de Flamel”, o simbolismo alquímico da serpente tem total relação com um mineral ou um metal frio e venenoso. A serpente da “Cruz de Flamel” é a Satúrnia, assim mencionada por Flamel em suas escrituras.

Cruz: alquimicamente a cruz ou crucifixo pode simbolizar duas coisas: um cadinho (vaso de material resistente ao fogo usado para fundir ou calcinar minérios e minerais) ou a morte do composto. Misticamente, a cruz simboliza a existência física de um indivíduo, como descreve o Rosa Cruz Raymund Lebell:

Desenvolvemos a rosa da alma por meio da cruz das existências físicas, até o ponto em que a rosa desabrocha plenamente e seu perfume inunda o universo… Então é a Iluminação e o serviço consciente no Grande Projeto Universal.

Na “Cruz de Flamel”, o crucifixo pode significar, simbolicamente, a falência de determinado composto na reação alquímica, ou seja, a sua transformação no elemento almejado.

Asas: o significado das asas na capa do Edward da série FullMetal Alchemist, pode significar "o poder e liberdade concedidos pela alquimia", mas na “Cruz de Flamel”, as asas têm um significado a mais. As asas simbolizam a força da transcendência e na “Cruz de Flamel” podem simbolizar a alma.

Coroa: a coroa simboliza a conclusão próspera de uma operação alquímica. Também significa a química da realeza ou a perfeição de um metal, as qualidades mais nobres e superiores do ser humano e, ao mesmo tempo, aquilo que as transcende por constituir o arquétipo das mesmas. No trajeto percorrido pelo alquimista em busca do conhecimento, ou através de rito iniciático, as qualidades vão se desenvolvendo paulatinamente depois de um longo processo de transmutação alquímica. Nesse processo, o aspirante alquimista vai tomando gradualmente a consciência da sacralidade de sua existência, ou de sua realidade no universo, até se identificar plenamente como parte de um todo, como parte deste Universo. Essa identificação se visualiza muitas vezes como a “conquista” de um estado espiritual (ou supra-individual), que é o que, efetivamente, “coroa” o alquimista com a realização do dito processo, ou seja, “legítima-o”, o faz verdadeiro e certo, investindo a ele uma autoridade que emana diretamente do próprio poder de Deus, o Rei Supremo, ou Rei do Mundo.

O Símbolo do Flamel pode significar muito mais coisas, e sempre teremos nossas próprias interpretações sobre ele. Cada um de nós temos o poder de buscar nas simbologias, nosso refúgio. Isso faz parte da natureza humana. Façamos o uso deste e de outros símbolos de maneira a nos encontrar. Isso é o que nos ajuda a viver uma vida guiada pelos nossos anseios e pelos nossos valores. Paz profunda a você, leitor.




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